Resenhas

Katy J Pearson – Sound of the Morning

Segundo disco da artista britânica coloca seu olhar psicológico e minucioso em direção ao futuro, repensando o folk e se abrindo à psicodelia e à nostalgia noventista

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Ano: 2022
Selo: Heavenly Recordings
# Faixas: 11
Estilos: Dream Pop, Indie Rock
Duração: 42'
Produção: Katy J Pearson, Ali Chant e Dan Carey

Quando Katy J Pearson decidiu nomear seu disco de estreia como Return, ela não poderia imaginar quão simbólico este nome seria em sua carreira. Lançado em 2020, o registro foi o responsável por introduzir ao mundo uma artista comprometida com a sinceridade do folk – com referências que iam de Dolly Parton a Kate Bush. Foi como se toda aquela sonoridade simultaneamente frágil e forte estivesse a serviço de um retorno a si mesma – ou seja, um disco de estreia que trazia suas percepções da vida cotidiana, ao mesmo tempo que repassava a sua história antes mesmo se considerar uma artista.

A partir desse disco, Katy J Pearson deixou claro que a matéria-prima de seus trabalhos sempre estaria relacionada a esta dimensão pessoal, quase como um diário mais psicológico e menos cronológico – uma espécie de “”novo folk que encontra expressões similares em artistas como Adrianne Lenker, Florist e Tomberlin. De certa maneira, sua obra tem uma boa parcela de responsabilidade em desassociar a música indie do estereótipo folk fofo da virada dos anos 2000 para os 2010 – colocando-se como artista amadurecida e que utiliza a música como seu refúgio mais precioso.

Até então, os movimentos artísticos de Katy parecem se voltar ao passado como objeto de estudo. Simultaneamente a isso, a rotina acelerada exigiu bastante dela nos últimos anos em que promoveu o disco. Assim, todos os elementos pareciam estar alinhados para que uma nova fase pudesse surgir nos horizontes de Katy J Pearson: uma fase menos focada na tradição e mais nas possibilidades. O título de seu novo álbum traz esta ideia forte, principalmente quando associado à palavra “manhã”, o estágio inicial de cada dia. Desta maneira, Sound of the Morning já deixa avisado logo de cara que a Katy que vamos escutar durante estas 11 faixas não é a mesma do disco passado, apesar de sua escrita continuar tão sincera quanto sempre foi.

Assim como as manhãs, o disco começa despertando aos poucos com cristalina “Sound of the Morning”, um meio termo entre melodias sagradas de Joni Mitchell e violões psicodélicos de Simon & Garfunkel. Já “Talk Over Town” introduz novas paisagens, com um refrão que não economiza nos ecos para se fazer grande e intenso. “Confession” é mais animada, uma divertida composição indie que prende a atenção do ouvinte nos detalhes como os sons de trompete ou o white noise que acomoda nossos ouvidos em frequências específicas. “Float” traz aquela tragédia da juventude típica de canções de Weezer, porém com um arranjo menos pautado no rock e enfeitado com arranjos de cordas. “Game of Cards” brinca com vocais do pop para propor uma balada folk dos anos 1970, repleta de suingue e beirando o funk. Por fim, “Willow’s Song” abranda o experimentalismo, deixando texturas de sintetizadores quentes e assombrosos em uma camada bem baixa, só para fazer cócegas no ouvido.

A característica mais evidente deste novo disco é a forma como o foco deixa de ser apenas o folk para compartilhar espaço com diferentes sonoridades. Entre elas, o dream pop, com cores fortes e um aspecto nostálgico de referências dos anos 1990. O experimentalismo e a ruptura com o modelo voz & violão permitem que aquela mesma sinceridade do disco de estreia possa alcançar um patamar ainda maior. Só porque uma conversa é honesta, ela não precisa ser intimista e branda. É deste impulso que surgem momentos dançantes e ensolarados, evidenciando uma artista segura das escolhas de seu trabalho. Coproduzido com Dan Carney e Ali Chant, Sound of the Morning proporciona novas emoções ao ouvinte que aprecia esta faceta da obra. Não é uma questão de ser melhor ou pior, mas de enxergar um campo completamente novo a partir da ótica psicológica de Katy.

(Sound of the Morning em uma faixa: “Talk Over Town”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.