Resenhas

Laura Mvula – Pink Noise

Um pouco mais distante do R&B, terceiro disco da celebrada artista britânica usa referências oitentistas a favor de narrativa forte e sincera

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Ano: 2021
Selo: Atlantic
# Faixas: 10
Estilos: Synthpop, Electropop
Duração: 37'
Produção: Laura Mvula e Dann Humme

Que os anos 1980 têm sido cada vez mais uma fonte de inspiração para produtores e compositores contemporâneos, não é novidade. Parece ter se tornado até uma “obrigação” não-formal de divas Pop lançarem discos totalmente recheados de referências Disco e Synthpop. Entretanto, é comum que a década referida seja apenas um ponto de partida para que elementos e tecnologias mais recentes sejam diluídos à fórmula – a década de 1980 voltou, porém como uma linguagem que se soma às demais. E no caso de Laura Mvula, a particularidade de cada timbre e arranjo dos anos de neon é potencializada ao máximo, com precisão.

Apesar disso, Laura Mvula, até aqui, não era uma artista conhecida por trazer esta década em sua sonoridade. Sua aclamada estreia com o disco Sing To The Moon (2013)é  repleto de orquestrações misturadas ao groove classudo do R&B. Mesmo no disco seguinte, The Dreaming Room (2016), o R&B ocupava um lugar privilegiado, ainda que permeado de texturas mais etéreas e esparsas. Inclusive, em entrevista à NME, Laura comentou que o fato da crítica, ao analisar seu êxito, mostrar uma espécie de “surpresa” por conta de uma artista negra trazer grandiosos arranjos de cordas, sempre soou como parte um racismo institucionalizado. Parecia que os veículos ficavam surpresos por ela ter estudado alguns instrumentos de orquestra durante sua infância. Soma-se a isso o fato de, em 2017, a gravadora Sony ter interrompido seu contrato por uma falta de interesse. Ao invés de internalizar isso e tornar estas angústias parte de um disco melancólico, Laura assinou com a Atlantic e resolveu colocar no mundo uma expressão autêntica e brilhante de sua perspectiva. É aí que entram os anos 1980 entram e Pink Noise nasce.

A influência no terceiro disco de Laura significa muito mais do que apenas colocar uma camada de sintetizadores lustrosos junto de sequenciadores 808s. O que mais lhe interessa dentro desta década é a força das faixas Pop, seja refletida pela instrumentação repleta de ecos ou pela sensação de dançar livremente. Particularmente esta última característica parece se relacionar diretamente com a narrativa de Laura, que, agora livre de uma gravadora abusiva, se sente livre e à vontade ao colocar para fora suas composições como bem quiser. Tal qual as divas Pop, ela também dá um toque autêntico à sua releitura, mas fica claro que sua escolha não é meramente estética – e, sim, sentimental. E ela conduz essa viagem de maneira envolvente.

“Safe Passage” dá início ao repertório com uma pegajosa balada eletrônica e um refrão melódico e chiclete. “Church Girl”, mais dançante, fala sobre deixar velhas personagens para trás em busca do verdadeiro “eu”, “Magical” mostra laura brilhando nos vocais. “What Matters” tem uma ambientação romântica e conta com a voz suave de Simon Neil, quase um dueto aos moldes de Whitney Houston e James Ingram. “Got Me” não parece ter sido escolhida como single do disco à toa, por trazer a força e a malemolência de Michael Jackson, principalmente na era Dangerous. “Before The Dawn” não poupa esforços para finalizar o disco de maneira estrondosa, misturando uma faixa cinematográfica de Peter Cetera com a potência de Diana Ross.

Longe de ser um disco saudoso pelo simples exercício de nostalgia, Pink Noise é pontual em trazer uma estética a serviço de uma narrativa. Com canções fortes e produção afiada, Laura Mvula traça um novo caminho para sua obra, sem sacrificar a autenticidade tão elogiada dos dois primeiros discos. Os anos 1980 foram um imenso reforço para seu leque de influências.

(Pink Noise em uma faixa: “Got Me”)

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ARTISTA: Laura Mvula

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.