Resenhas

Nick Murphy – Music For Silence

Introspectivo, segundo disco lançado sob o nome de batismo viaja pela dor, mas em busca da cura

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Ano: 2020
Selo: Detail Records
# Faixas: 10
Estilos: Downtempo, Ambient, Instrumental
Duração: 62’
Produção: Nick Muprhy

Há anos o australiano Nick Murphy vem lançando músicas sob o nome de Chet Faker. Segundo ele, a razão para a brincadeira com o nome do famoso jazzista Chet Baker parte da admiração por sua forma de cantar, mas, ao mesmo tempo, serve para evitar confusão com outro músico chamado Nick Murphy, com quem era confundido constantemente. Com uma evidente sede de pesquisa sonora, o produtor e músico se consolidou como um meio termo entre Dance Music e Ambient Music – algo contemplativo, mas também propício para dançar.

Seu primeiro disco de estúdio, Built On Glass (2014), solidificou experimentos de EPs passados, entre eles uma brilhante parceria com Flume em Lockjaw (2013). Sua identidade se mostrava edificada em bases fortes, com uma assinatura marcante o suficiente para escutarmos uma música e afirmar sem dúvidas que se tratava de Chet Faker. Entretanto, após anunciar que lançaria discos sob o seu nome verdadeiro, o aspecto introspectivo de sua música começou a se sobressair, ainda que tímido, em Run Fast, Sleep Naked (2019).

Menos de um ano após o lançamento anterior, Murphy sentiu a urgência de colocar sua dor para fora, utilizando o piano, instrumento no qual fora educado musicalmente, como receptáculo. Para tal, o produtor e músico australiano se isolou por uma semana em uma igreja no estado de Nova York, com equipamentos de gravação e um piano. Ele se encontrava em um momento difícil emocionalmente, no qual sentia que apenas o isolamento poderia dar conta de prover espaço suficiente para elaborar sua dor.

Tocando todos os dias e gravando as composições, surge Music For Silence, a obra mais introspectiva de Nick Murphy até o momento. Com exceção de uma faixa, sua voz não ocupa lugar central no disco. Ao invés disso, cede-se espaço ao piano; para além da sonoridade, destaca-se a intenção de como o instrumento é tocado e as pinceladas de efeitos sutis que Murphy imprime. Dessa forma, apesar da reduzida quantidade de elementos, o impacto que estas músicas nos causam é inegável. O repertório nos coloca em um lugar totalmente diferente daqueles com os quais estamos acostumados. Sem beats, programações ou samples – é apenas ele. Faz sentido que ele tenha tido a necessidade de lançar músicas com seu nome verdadeiro, vestindo a camisa e assumindo: essa é a minha dor.

Com dez faixas, o disco alcança a marca de uma hora de reprodução. Logo de início, nos deparamos com “And You Don’t Even Know You Hurt Me”, uma peça catártica de 13 minutos, que imprime um reverb sutil, servindo de cama para que possamos deitar e apenas contemplar. Esta talvez seja uma das características mais marcantes deste disco: a de como nosso papel é apenas escutar a história que Nick Murphy nos conta, sem colocar muito de nós no meio do processo. “Tongue (Lift 4)” é a única composição que contém sua voz, mais como um instrumento que entoa uma melodia frágil do que como meio comunicador. A rápida “Everyday Feelings” pode soar como um fragmento de um minuto e meio, mas é um alívio fugaz, de igual importância para o processo catártico do autor. “Salt Of The Heart” é uma composição dividida em duas partes, as quais trazem o talento de Murphy como engenheiro de som – dosando efeitos que se encaixam à sua narrativa e ajustando a melodia ecoada como uma forma de voz capaz de dizer tanto quanto vozes humanas.

Este é um trabalho extremamente denso. Apesar de belas, as canções carregam uma intensidade emocional ímpar, fruto de uma experiência catártica de Nick Murphy em seu isolamento. Um disco que, se colocado sob a alcunha de música ambiente, perde totalmente seu significado. Uma obra de imersão profunda, mas também sobre cura.

(Music For Silence em uma faixa: “Salt Of The Heart”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.