Resenhas

Tássia Reis – Próspera

A jovem artista transcende o Hip Hop ao misturar diversos gêneros para surpreender com um disco coeso e que ainda conta com letras escritas com primor e qualidade

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Ano: 2019
Selo: Natura Musical
# Faixas: 16
Estilos: Rap, R&B, Soul
Duração: 44'
Nota: 4
Produção: DJ Thai, Eduardo Brechó, Jhow Produz, Nelson D, Willsbife e Tássia Reis

Tássia Reis sempre esteve confortável para se aventurar por sons que vão além do Hip Hop. Seja no EP de estreia em 2014 ou no ótimo Outra Esfera (2016), ela demonstra competência para explorar o R&B, o Soul e o Pop, muito por conta da amplitude vocal e a capacidade de variar timbres. Mas, em Próspera, essa intimidade com diversas influências aflorou de maneira ainda mais intensa do que em seus antecessores. E se harmoniza ao talento da paulista natural de Jacareí como letrista, que traz o peso e a chancela do Rimas & Melodias.  

Com um time de músicos e DJs assinando a produção ao lado de Tássia, o disco deixa claro, já logo de cara, que a jornada não será embalada exatamente por rima, flow, caixa, prato e bumbo. “Amora”, o cartão de visita, é um Groove dançante que bebe da fonte do Soul norte-americano. Mas, ao mesmo tempo, adiciona-se brasilidade ao caldeirão, a partir de uma levada sincopada na qual reverberam artistas dos anos 1970, como Di Melo, Antônio Carlos & Jocafi e Hyldon. A proposta sonora, entusiasmada e diversificada, perpassa todo o trabalho e está em sintonia com o lirismo de Tássia. 

Em recente entrevista à Folha de S. Paulo, a cantora, ao comentar o conteúdo das letras no novo trabalho, disse que sua “visão de mundo passa por vários lugares e pode passar pela política, mas tudo o que uma jovem negra de 29 anos fizer e que for fora do padrão já é um ato político em si”. O desprendimento de um discurso político ipsis litteris é, de fato, evidente no novo projeto, mas, seu pulo do gato, é conseguir tornar as letras redentoras ainda assim. 

Na faixa-título, Tássia faz uma ode ao otimismo e – como o nome diz – à prosperidade sob um instrumental que certamente faz a cabeça de fãs de Prince e D’Angelo. Grande canção do disco, “Próspera” nos mostra uma compositora de caneta afiadíssima, perspicaz em rimas internas e jogos de palavras ritmados que chegam a remeter à poesia de Cecília Meireles. “Se antes pensei que era/Agora julgo não ter sido/E quanto mais queda, quanto mais pedra/Melhor, faz muito mais sentido”, ela canta antes de anunciar que está “better than never”, no refrão. “Ansiejazz” segue a mesma linha confiante, com Tássia superando a ansiedade e as incertezas para desfrutar do amor plenamente, “sempre inteira, nunca metade.”

O amor e as maquinações do destino, aliás, são temas de outras pérolas do disco.  “Eu + Vc”, que traz participação de Fabriccio em belo verso, é um R&B guiado por notas cremosas na guitarra e com clara influência de Erykah Badu (em especial a da época de Mama’s Gun e Baduizm). A herança baduísta – com alguns toques pops à la Destiny’s Child – também ecoa no apelo por recomeço amoroso de “Pode Me Perdoar”, um dos principais singles do disco. 

A face (mais) rapper de Tássia é mostrada em “Dollar Euro”, um trap chapa quente com direto a “skrr” e graves pujantes marcando o beat arrastado, e um remix de “Shonda”, single lançado em 2018 e que, aqui, ganha o reforço de Froid e Preta Ary. Mas, mesmo com a veemência das duas canções, os discursos incisivos também se encontram em canções mais intimistas e atmosféricas e que são bem-sucedidas na missão. Como em “Preta D+”, uma slow jam em que a cantora aborda a inadequação a padrões e – por conta disso – a afirmação da negritude e das raízes: “O mundo tem que melhorar / Eu já mudei minha percepção / Agora eu sou Preta D+ / Mas não na sua conotação / Eu sou D+, eu sou incrível/ Eu sou D+ e não sou invisível/ Eu sou Preta D+”

Ao ouvir Próspera, podemos apontar influências que vão de Badu a Cardi B, passando por Prince e até Ray Charles, mas, mesmo com a “salada de referências”, o disco não perde identidade e coesão. O conforto de Tássia ao navegar por essa fusão sonora somado à sua poesia sagaz tornam a viagem natural, prazerosa e instigante. 

(Próspera em uma música: “Próspera”)

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ARTISTA: Tássia Reis
MARCADORES: R&B, Rap, Soul