Resenhas

Rashid – A Coragem da Luz

Poderoso e orgânico trabalho é de longe o melhor disco do rapper paulista

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Ano: 2016
Selo: Independente
# Faixas: 15
Estilos: Hip Hop, Rap
Duração: 54:00
Nota: 4.5
Produção: Parteum, Nave, Marechal, Rashid, Max de Castro, Vitor Cabral, Skeeter, DJ Caique, Julio Mossil

Percebia-se desde o começo que os caminhos que Rashid seguiria em seu novo disco seriam distintos. A Cena, primeiro single de A Coragem da Luz, já colocava o ouvinte em uma posição de desconforto em uma lenta faixa fúnebre que trazia elementos orgânicos e um toque de Jazz jamais vistos em suas mixtapes. Entendia-se que o músico seguiria a estética de uma grande banda de apoio em composições, fuga natural e expansiva que o Hip Hop brasileiro viveu nos últimos anos com Criolo e Emicida, mas que as opções seriam distintas, talvez mais cruas e densas.

Engana-se quem pensa que seu excelente novo trabalho é tampouco acessível – existem momentos em que objetividade cruel se faz necessária para que a palavra do rapper tenha impacto, ao mesmo tempo em que sua obra torna também possibilita que existam momentos nos quais sua música possa ser Pop e impactante. O elemento popular a que me refiro vem desde referências a MPB, como o Samba de Dna, até o Funk oitentista de Homem do Mundo, com participação de Criolo. No entanto, o poder que a caneta traz a Rashid faz com que suas letras fujam de banalidades e futilidades: o seu foco é a desigualdade econômica e social, o preconceito racial em uma sociedade que estrangula-se ainda em passados sombrios e a força de vontade e esperança que trouxeram o rapper a alcançar a notoriedade e importância no cenário musical atual.

O crescimento entre Confundindo Sábios e A Coragem da Luz é notório, seja pelas diversas participações especiais espalhadas pelo disco ou pelo seu conteúdo musical. Mais que somente samples, temos arranjos; mais que simples referências, temos transpiração em cada canção e muita inspiração para composições. Laranja Mecânica, com Xênia França, é zeitgeist sobre a atual sociedade “conectada”, enquanto o Rock de Futuro é o momento mais poderoso e impactante de toda obra. Calçada no racismo, a faixa aperta a ferida sob o preconceito velado que temos na sociedade brasileira através de contextualizações raivosas precisas. “Sua cota prevê rolezinho e na porta do shopping barrar meu perfil/me fazendo descer do busão pra não ter arrastão numa praia do Rio” pode ser considerado alguns dos versos mais sublimes do rapper.

Se a questão racial nunca deixou de ser relevante na música, seu momento atual mostra-se conectado com lutas travadas há séculos. Kendrick Lamar fez um disco sobre a sua visão racial nos EUA e podemos dizer que, na mesma forma, Rashid cria e compõe sobre um conteúdo localizado no Brasil. No entanto, ele abre espaço para que seu lado romântico surja em momentos inspiradíssimos e prontos para chegar a mais ouvidos, caminho que Emicida soube conduzir muito bem: a sensual Depois da Tempestade exala suingue e Soul brasileiro e tem um refrão pegajoso feito por Alexandre Carlo; Segunda-Feira, com Srta. Paola, conta a história do rapper em mais uma faixa radiofônica e perfeita para trazer dinâmica e respiro ao álbum; e Reis e Rainhas pede um remix e poderia ser tocada em baladas tranquilamente. Todas as músicas nos fazem pensar em sua execução ao vivo por conta de seus toques jazzísticos, orgânicos e o suor passado.

Ao mesmo tempo, nos momentos mais crus e explícitos, seguindo a estética de A Cena, vemos aonde Rashid quer chegar com sua música: construir quebras dentro do próprio estilo e fugir da obviedade que o Hip Hop muitas vezes pode trazer. Como Estamos? é um desses exemplos ao usar o Jazz modal como pano de fundo a uma letra sobre os problemas raciais vistos em uma cidade grande. Em outros instantes, tais escolhas são auxilidas por parcerias certeiras, como a ótima Ruaterapia com Mano Brown e Max de Castro, o grande single que impulsiona sua obra.

Ouvir A Coragem da Luz é um exercício que procura enxergar seus semelhantes, papel fundamental que a música, principalmente o Rap, sempre quis passar no Brasil. Todavia, a obra é um trabalho de criação rico que busca suas raízes na música negra brasileira e estrangeira, escolha que ajuda a realçar a lírica direta de Rashid.

Essa combinação proporciona contornos e amplitudes jamais vistos ao longo de sua discografia e mostra que estamos diante de um artista que não procura seguir fórmulas prontas para alcançar mais pessoas através de seu ofício, mas manter-se fiel às suas origens. Por isso, a capa de seu disco nos mostra uma rua de terra em Ijaci, Minas Gerais, cidade na qual o rapper viveu sua adolescência. Por isso a escolha por elementos orgânicos e composições reais funciona também nesse que pode ser considerado o melhor disco de Rashid – um trabalho emergencial e fundamental em um momento tão conturbado quanto o atual.

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BOM PARA QUEM OUVE: Kendrick Lamar, Emicida, Criolo
ARTISTA: Rashid
MARCADORES: Hip Hop, Ouça, Rap

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.