Resenhas

Sigur Rós – Odin’s Raven Magic

Grupo islandês lança registro oficial de ambiciosa apresentação feita há quase 20 anos, na qual cria trilha sonora para célebre poema nórdico

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Ano: 2020
Selo: Krúnk
# Faixas: 8
Estilos: Música Clássica, Avant-garde
Duração: 65'
Produção: Sigur Rós

Sigur Rós pode não ser a banda mais Pop e acessível, mas certamente já tocou muitas pessoas ao redor do mundo. Colocado, por falta de nome mais cirúrgico, sob o grande guarda-chuva do Post Rock, a música do grupo islandês transcende essa denominação e cria paisagens sonoras que evocam uma sensação quase metafísica nos ouvintes. Adentrar em qualquer registro do grupo significa mergulhar em um universo muito particular, alheio. E é como se a obra de Sigur Rós fosse autossuficiente, mas, ao mesmo tempo, nos transportasse para outros cenários e tempos. Seja um tempo mais inocente, que remete à infância, como em Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust (2008), ou até mesmo a uma fase mais madura e reflexiva, como no célebre Agætis Byrjun (1997).

Apesar das diferentes tonalidades em cada disco, a banda sempre se manteve fiel à estética que lhe é tão própria e característica. Mas, em um ano conturbado como o de 2020, o grupo resolveu dirigir seu olhar ao passado, para desenterrar uma experiência arrebatadora e oficializá-la em forma de disco. O resultado é Odin’s Raven Magic, registro de um ambicioso projeto musical que mistura a linguagem poética da mitologia nórdica com a linguagem musical de uma orquestra. Dessa forma, a aparente sensação de viagem no tempo que as obras do grupo causam se concretiza de duas formas: revisitando uma apresentação musical realizada há quase 20 anos, mas também criando a trilha sonora de um período mitológico. Apenas Sigur Rós para dar vazão a isso.

A apresentação em questão foi realizada no Festival de Artes de Reykjavík em 2002, quando Sigur Rós se uniu a duas orquestras (Schola Cantorum de Reykjavik e L’Orchestre des Lauréats du Conservatoire National de Paris) para musicar um poema islandês cujo século de publicação ainda é debatido por estudiosos linguísticos. Entre outras personalidades, junta-se à orquestra a voz potente do padre pagão Hilmar Örn Hilmarsson e o escultor Páll Guðmundsson, que confeccionou uma marimba de cinco oitavas especificamente para este ato.  O poema em questão (no original, Hrafnagaldr Óðins) narra acontecimentos em torno do deus Odin, que, ao perceber sua queda iminente, lança seus corvos em uma missão para que façam um reconhecimento do mundo. O texto em questão é uma das fontes mais preciosas e ricas sobre a cultura nórdica.

Aquela sonoridade Post Rock aparece mais tímida por entre as oito faixas que compõem o registro. De forma geral, temos diferentes movimentos da música clássica compondo a narrativa e os diversos momentos que ela pontua. Por este motivo, faz sentido escutá-las na ordem colocada e de uma vez só, como um grande concerto. Há momentos em que o aspecto de trilha sonora fala mais alto, como na faixa de abertura, “Prologus”.  Mas, com a devida atenção, percebemos que, apesar de ser um trabalho colaborativo, a marca de Sigur Rós ainda é bastante presente, principalmente nas ambientações quase espirituais e misturadas com percussões marcantes (“Dvergmál”). O trabalho de vozes do disco também é um outro ponto a ser destacado, funcionando tanto como representação da narrativa quanto como instrumento melódico de vida própria –que realça cada momento da história.

Saudosistas da sonoridade clássica da banda podem sentir falta das atmosferas de outros discos de Sigur Rós, mas Odin’s Raven Magic é a oportunidade de presenciar um lado do grupo que nem sempre conseguimos ouvir. Musicalizar um poema de tamanha importância foi mais um passo de uma banda para a qual o efeito catártico é sempre tão caro. Aqui, essa forma de criar foi capaz de dar voz e música a uma mitologia completa.

(Odin’s Raven Magic em uma faixa: “Spár eða spakmál”)

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ARTISTA: Sigur Rós

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.