Resenhas

The Flaming Lips – The Terror

Wayne Coyne e sua trupe fazem um disco sombrio com faixas muito parecidas entre si, mas ainda de altíssima qualidade

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Ano: 201
Selo: Warner Bros.
# Faixas: 9
Estilos: Rock Alternativo, Indie Rock, Rock Experimental
Duração: 59:10
Nota: 4.0
Produção: David Fridmann, Scott Booker e The Flaming Lips

Nunca ouvi muito The Flaming Lips, só aquelas que todo mundo conhece e tal. Não por mal, apenas acabei dando atenção a outras bandas. Mesmo assim, as inúmeras vezes que ouvi este The Terror me fizeram ter certeza de duas coisas: 1. A discografia sempre mutante da banda, de tanto variar, te permite desfrutar de um só álbum unicamente mesmo sem conhecer o restante da obra; e 2. Cada vez mais, fico curioso para revirar os 30 anos de carreira do grupo.

Minha impressão é a de que todo o álbum retrata um grande e longo pesadelo, ou filme de horror (como o nome já sugere). Suas faixas são todas emendadas umas nas outras e, se você não ficar atento, mal vai perceber o instante em que uma acabou e a seguinte começou. Mas elas não chegam a ser repetitivas e cada uma logo começa a revelar sua identidade. Sim, pode ficar um pouco repetitivo, mas a alta qualidade do som satisfaz.

Look… The Sun is Risingserve como introdução para toda a obra, dando o clima que ouviremos ao longo de todo o disco. A próxima música, Be Free, A Way, reforça a ideia de sonho (ou pesadelo) ao colocar os vocais em camadas mais distantes, que logo dão lugar a espaços em branco em meio a pequenos sons e assim começa Try to Explain, com a voz em primeiro plano e o mesmo aspecto onírico e uma pequena narração ao final, que também preza pelo silêncio.

É assim, estabelecendo diferenças e semelhanças entre as faixas que começam os 13 minutos de You Lust. Porém, não se assuste com o tamanho: Felizmente, é este um dos pontos altos de todo The Terror. Ela percorre um caminho sinuoso e musicalmente muito rico, e é aí que o disco adquire sua maior cara, esse aspecto obscuro e de trilha de vídeo game. Em diversos momentos da música, dá para visualizar o jogo em primeira pessoa e os zumbis saindo por todos os lados do cenário.

A faixa-título é também muito boa e vem logo aí, no que provavelmente será a primeira canção do lado-B do vinil. Ela começa simples e vai crescendo, aumentando sua tensão, até a guitarra e a distorção das vozes recuperar aquela aura de filme de horror, que aparece concentrada aqui ao final da música.

Minha impressão é que o disco se revela aos poucos. Logo na primeira audição, é tudo meio parecido – não monótono, mas parecido demais -, porém os detalhes conferem uma riqueza interessante à experiência de ouvir The Terror como um todo.

Isso acontece quando você presta atenção em You Are Alone e percebe que ela é uma ótima introdução para Butterfly (How Long It Takes to Die), o clímax absoluto de todo o álbum. A música é a mais envolvente de todas, ainda que uma das mais dark. Ela faz uma bela dupla também com a seguinte, Turning Violent, uma das mais agressivas (o que dá pra imaginar pelo título).

Quando eu digo “agressiva”, não imagine que se trata de algum clichê de “Rock pesado”, com baterias em alto volume e as guitarras violentamente arranhadas. É uma força lenta, que vai cozinhando aos poucos. Não é raiva, é ira, sabe? É “terror” mesmo.

A conclusão com Always There… In Our Hearts não poderia ser melhor. Ela é apoteótica, com um início que lembra coros monásticos e uma progressão também violenta. É a sonoridade à qual nos acostumamos a ouvir nas últimas oito faixas, toda de uma só vez para dar fim ao conceito.

Como eu disse, qualquer um que goste de narrativas complexas, conhecendo ou não bastante do trabalho da The Flaming Lips, pode desfrutar da obra. Para os menos familiarizados, é como ler um livro de algum autor já consagrado que você nunca leu muito e percebe que vale a pena ir atrás de outras edições.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.