Resenhas

The Smile – A Light For Attracting Attention

Projeto de integrantes do Radiohead une o universo ambíguo do quinteto inglês à força de arranjos grandiosos da Orquestra Contemporânea de Londres

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Ano: 2022
Selo: Self Help Tapes
# Faixas: 13
Estilos: Experimental, Shoegaze, Avant-garde
Duração: 53'
Produção: Nigel Godrich

Toda vez que queremos apresentar Radiohead a alguém, surge uma inevitável dúvida: qual o estilo musical da banda? Nomear a sonoridade camaleônica do grupo inglês é uma tarefa árdua que mesmo os fãs mais oldschool têm certa dificuldade em realizar. Muitas vezes, o termo experimental acaba sendo uma saída comum para categorizar o som da banda, mas ele não parece traduzir de forma plena as características reais. Há um experimentalismo intenso, mas também uma ordem muito clara que proporciona a coesão geral das músicas. Certamente não é pop, mas algumas de suas canções recorrem a melodias chicletes e insistentes em nossa cabeça. Há quem diga que o próprio nome da banda funciona como tentativa de sintetizar as diferentes referências em jogo –  como se tivéssemos realmente uma cabeça de rádio, sintonizando diferentes frequências conforme o disco vai sendo reproduzido.

Seja como for, o fato é que a essência do Radiohead é composta não apenas desta dificuldade de nomear sua estética, mas também de como suas canções parecem trazer diferentes significados a diferentes pessoas. Qualquer que seja o nome exato, uma coisa é certa: a linguagem do Radiohead é a das ambiguidades e a melhor forma de perceber isso na prática é voltando nossos ouvidos para The Smile – o mais novo projeto adjacente da banda, que une Thom Yorke e Jonny Greenwood ao baterista de Sons of Kemet, Tom Skinner.

Primeiramente, é preciso deixar claro que, apesar de ser um projeto vinculado a dois membros da banda, A Light For Attracting Attention não é um disco do Radiohead. Mesmo assim, o universo construído nestas 13 faixas contempla aquela particularidade ambígua própria do quinteto inglês. As canções parecem comportar sensações contraditórias em um mesmo lugar e, certamente, essa justaposição se manifesta na forma como cada instrumento expressa sua particularidade em coesão com as demais partes. Temos, em um mesmo espaço, sintetizadores com grandiosas orquestras, riffs de shoegaze com percussões precisas e dedilhados otimistas de guitarra aliados a pianos melancólicos. Assim, durante a reprodução do disco, o trio constrói uma sensação de tensão suficiente para nos manter curiosos, mas não tão grande que nos faça largar o disco na metade. É um movimento bem preciso que parece encontrar na presença do baterista Tom Skinner um caminho diferente da costumeira dinâmica Radiohead. Apesar da ambiguidade ser um dos cernes do disco, é a força dos arranjos impetuosos e comoventes e dão aquele golpe final que deixa os ouvintes sem ar.

Pincelando notas desafinadas com um timbre característico da paleta sonora de Thom Yorke, o grupo escolhe “The Same” para abrir o disco – canção que aos poucos abre nossa audição para este universo pitoresco e pulsante. “You Will Never Work In Television Again” é um ótimo de exemplo de como as referências do Radiohead são transformadas em peças ainda mais intensas, encaixando na bateria robótica de Tom Skinner os riffs sujos e ríspidos de guitarra – algo que remete a algumas canções de In Rainbows (2007). O single “The Smoke” talvez seja um choque para aqueles que esperavam se manter nos trilhos de Radiohead – revestindo um groove suingado típico de trip hop com os arranjos densos da Orquestra Contemporânea de Londres. “Open The Floodgates” funciona em um meio termo entre “interlúdio” e canção, na medida em que traz uma estrutura, mas também soa como momento de passagem. Em “Waving A White Flag”, as orquestrações brilham, propondo uma peça vertiginosa e que vai aumentando conforme entramos cada vez. “Skrting On The Surface” encerra o trabalho voltando para o eixo Radiohead e empunhando os famosos dedilhados melancólicos de Jonny Greenwood com o falsete hipnótico de Thom Yorke.

As comparações com Radiohead podem ser inevitáveis, mas, mesmo assim, The Smile traz em A Light For Attracting Attention uma prova de sua autenticidade sonora. É um disco preocupado em sustentar a atenção do ouvinte, mesmo que para isso tenha que propor momentos de tensão antes de um alívio à altura. As cores deste trabalho parecem ter se apropriado da pluralidade semântica do “sorriso” do título – que dependendo do contexto muda de intenção, mas é sempre um gesto significativo. De maneira semelhante, o disco propõe microcosmos subjetivos que, ao longo da travessia, marcam o ouvinte.

(A Light For Attracting Attention em uma faixa: “The Smoke”)

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ARTISTA: The Smile

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.