Resenhas

Zack Fox – shut the fuck up talking to me

Lançamento do humorista, ilustrador e (agora) rapper é mais um capítulo interessante sobre a frutífera relação entre comédia e Hip Hop

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Ano: 2021
Selo: Parasang
# Faixas: 9
Estilos: Rap, Trap, Comedy Rap
Duração: 20'
Produção: The Alchemist, Kenny Beats, BNYX® e outros

Uma breve pesquisa pelo WhoSampled é capaz de evidenciar a presença do comediante Richard Pryor na cultura Hip Hop. Sampleado de Ol’ Dirty Bastard a Tupac, passando por J. Cole e Kanye West, Pryor usou sua proficiência no humor para falar de problemáticas presentes em seu mundo, principalmente das problemáticas raciais. Ele dizia que “todo humor tem raiz na dor”. A característica fez com que seus álbuns de comédia, assim como discos de Jay-Z, Biggie e Nas fossem temas das mais diversas conversas nas barbearias e nos círculos sociais dos negros americanos.

Antes de Richard Pryor, houve ainda Rudy Ray Moore, comediante que já rimava sobre uma batida no seu disco Eat Out More Often (1970). “Todas essas coisas que o Hip Hop se tornou — a imagem, o swag, a independência, a provocação  — ele foi antes que nós chamássemos de Hip Hop”, disse Too $hort a TIME. Rap e comédia ainda compartilham a técnica da “punchline” como um de seus principais artifícios, e há pesquisadores que indicam que as batalhas de rima tiveram início com os “Dozen”, escravizados que eram vendidos em dúzia por possuírem problemas físicos e por isso se zoavam com rimas. O passado da relação entre comédia e Rap é frutífero, e com o lançamento de shut the fuck up talking to me (2021) do comediante, ilustrador (e agora, rapper) Zack Fox, essa história ganha mais um capítulo interessante.

A primeira vez em que prestei atenção em Zack Fox como rapper foi com “Jesus Is The One (And I Got Depression)”, música proveniente da participação do artista na web-série The Cave, de Kenny Beats. No programa, o produtor desconstrói o clássico “radio freestyle”: ao invés de trazer MCs como convidados que rimam letras não lançadas sobre beats já conhecidos, Kenny os coloca como protagonistas do programa, criando batidas personalizadas com as especificações (ainda que esdrúxulas) dadas pelos rimadores. Para a música que co-criaram, Zack Fox pediu um beat que soasse como “pós-11 de setembro e pré-morte da Whitney Houston”, resultando em uma música hilária sobre fé em Deus e consciência acerca de doenças mentais.

Zack Fox parece ter criado seu disco de estreia com a mesma objetividade e diversão da sua música para o The Cave. Os breves 20 minutos de audição de shut the fuck up talking to me soam como um Some Rap Songs, de Earl Sweatshirt, transportado para o Mundo da Fantasia de Yugi-Oh. “I got bitches ‘cross the universe, I’m pimping like I’m Steven /She gon’ hit me with them kegels, almost made me have a seizure”, ele rima no single “fafo”. Fox encara seu disco de estreia com uma humildade peculiar, como se este fosse o passo para se assumir rimador com mais confiança. Aqui, ele não está tentando fazer uma obra-prima da música ou um especial de comédia para a Netflix, mas, sim, dar um primeiro passo.

Em alguns momentos, ele conta, sim, piadas que já ouvimos, como “I feel like a condom, ain’t nobody fuckin’ with me,” de “menace”, muito similar a uma linha de Tyler, The Creator, em “Trouble On My Mind”. Na mesma música, ele diz que tá com o bolso tão pesado que quebra dimensões do tempo-espaço, o que é divertidíssimo de imaginar. Se houvesse um reboot de O Máscara, tenho certeza que Zack Fox seria não somente um bom Stanley Ipkiss, como também um bom Máscara. “Red dot on a nigga cheek, he look like Pikachu/ All my niggas evil, look like people off of Beetlejuice”.

Uma verdade é: Zack Fox got more likes than a white girl talking. Para os ouvintes menos pacientes, isso é sim um incômodo, já que funciona como uma muleta — fazendo a comparação ser praticamente sua única arma durante o disco. Porém, a objetividade de Zack Fox deixa nítido que ele quer apenas fazer algumas músicas de rap (com ótima escolha de beats, diga-se de passagem).

Seja no palco de um stand-up comedy ou em seu ex-programa na VICELAND, Fox nunca foi aquele comediante extravagante, de personalidade totalmente separada do que ele realmente é na vida real. Suas observações giram em torno de paternidade, as consequências de estar melhor de vida, além do próprio Hip Hop, entre outros temas cotidianos. Manter essa característica é um alívio, e mostra que Zack não deseja ser um rapper de paródia como Big Shaq ou Supa Hot Fire, mas mais um Childish Gambino em sua época mais inspirada em Lil Wayne. Com acertos e deslizes, shut the fuck up talking to me é corajoso por tentar. O desafio de Zack Fox agora é aprender como transportar tecnicamente suas hilárias ideias para o formato Rap, assim como ele faz com maestria e precisão para o formato de comédia.

(shut the fuck up talking to me em uma faixa: “fafo”)

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ARTISTA: Zack Fox