Resenhas

Aphex Twin – Syro

Retorno de Richard não poderia ser melhor na obra mais coesa, acessível e universal de sua discografia

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Ano: 2014
Selo: Warp Records
# Faixas: 12
Estilos: EDM
Duração: 64:00
Nota: 4.5
Produção: Aphex Twin

Já falamos muito sobre Aphex Twin, um apanhado sobre a sua história, forma de composição e o porquê de ser considerado um mito dentro da música Eletrônica. Logo, quando ocorreu o anúncio de seu novo disco sob o seu “mais famoso nome artístico”, a verdadeira marca, os olhares do mundo musical ficaram atentos ao verdadeiro retorno do músico que viria em seu sexto disco, Syro, o primeiro desde Drukqs de 2001. A sua exposição misteriosa, sempre atrelada a uma personalidade direta e, na maioria das vezes, calada, se deu dentro de seu espaço de domínio: a Internet.

Chega a ser engraçado pensar que quando as pessoas se deparavam com a ideia da existência de uma Deep Web (rede submersa, abaixo do limiar do que enxergamos naturalmente através de nossos browsers – imagem futurista sempre muito bem vista em filmes de ficção científica como Matrix), Aphex já era um usuário bem estabelecido. Não podemos afirmar com certeza, mas podemos ter noção de que o músico já estava produzindo e divulgando conteúdo nesta plataforma, o que explicita os vazamentos que aconteceram no começo do ano neste lado da Internet por um simples princípio: Richard sempre esteve à frente do seu tempo, seja pela programação de música na infância ou pela sua visão vanguardista desta forma de arte. Se hoje nos vemos dentro de milhares de abas, exposições e mídias, o produtor já pensara nisso tudo e havia reproduzido em discos clássicos da década de 1990, como Selected Ambient Works 85-92 e … I Care Because I Do – trabalhos obsessivos, minuciosos e extremamente autorais.

Por isso, para um ouvinte antigo, Syro talvez não mostre muitas coisas novas, além do fato de escutarmos suas faixas mais bem produzidas, (des)organizadas e abrangentes, todas com o toque autêntico de Richard. No entanto, longe da mesmice, além do fato de termos a certeza de que estamos diante de um trabalho do músico, o seu sexto disco é excelente. É como se a “reclusão” e continuidade de sua obscuridade o tivessem deixado hibernando e vendo ao mesmo tempo a constante evolução da EDM que ele ajudou a disseminar e expandir. Essa visão se reproduz em doze faixas que trazem as suas músicas mais acessíveis na carreira, todas com seu traço original e que transitam entre diversas vertentes e estilos ao mesmo tempo, mas sem nunca perder a essência.

Como disco, Syro funciona muito bem. Os nomes misteriosos de suas músicas podem ser muito bem compreendidos com um pouco de interpretação de seu conteúdo, assim como as batidas por minuto que estão explicitas nos títulos revelam um crescendo rítmico até o final, quando aisatsana [102] acalma os ânimos com um piano inesquecível construído sob bases de ambiências e texturas da natureza – riqueza que traz o elemento orgânico a um trabalho puramente sintético. Se tais nomenclaturas parecem desleixo ou simplesmente dão a impressão de meros rascunhos, mudam totalmente a opinião de alguém que as julgou pela capa, aliás, com todas as informações explicitas, como custos, instrumentos etc, podemos dizer que Aphex quer se preocupar menos com a imagem e ser mais “open source”, aberto para quem quiser se inspirar e produzir, ter acesso ao seu inventário.

Faixas épicas, como XMAS_EVET10 [120][thanaton 3 mix], mostram que existe espaço para a experimentação, construção e narrativa, tudo ao mesmo tempo em seus mais de dez minutos. Se o tema central construído ao redor de um “sintetizador gordo” nos guia para diferentes extremos, somos sempre levados a retornar ao seu ponto de equilíbrio em uma melodia riquíssima e inesquecível. A capacidade lírica escapista de transformar sons tão mecânicos e cheios de circuitos em drama, tensão e harmonia sempre foi uma capacidade única de Aphex Twin, mas que aqui alcança o seu lado mais sereno, simples e direto, como uma eterna trilha sonora que nos coloca dentro das máquinas digitais que possuímos, passando por cada circuito e nos conectando de uma forma simbiótica futurista. O Pop existe em produk 29 [101], faixa que tenta reproduzir a música Eletrônica comercial sem nunca ser comercial. Sua levada leve, quase que institucional, tenta constituir ironicamente o mundo consumista que vivemos – o diálogo dentro da música que traz duas pessoas conversando ao melhor estilo Barrados no Baile é só mais uma acidez dentro do humor negro do produtor.

Tal acessibilidade volta a em seu primeiro single, minipops 67[120.2][source field mix], assimilável e viciante abertura do disco, retorna minimalista em 4 bit 9d api+e+6 [126.6], constrói dissonância espacial na ressonante, psicodélica e Drum N’ Bass, CIRCLONT14 [152.97][syrobonkus mix] e faz uma das suas faixas mais “discotecáveis”, no sentido comum da palavra, na alta 180db_[130]. Essa última tenta alcançar os decibéis de seu título com um sintetizador absorvente e temos a sensação de que outras frequências e texturas vão se unindo à base inicial, ganhando volume e dando vazão para a construção de um riff sintetizado que faria inveja ao Dubstep. Depois, da explosão extrema de seu maior BPM em s950tx16wasr10 [163.97][earth portal mix], vem a calmaria já citada na composição no piano, de aisatsana [102]. Todos os momentos são escapistas, únicos e nunca estiveram tão bem produzidos como em Syro, provavelmente não pela falta de capacidade do produtor, mas pela crescente capacidade de processamento digital que cada vez mais se aproxima ao analógico, território divino que será facilmente ultrapassado em breve.

São nas pequenas melodias e variações tão ricas e constantes em todas as faixas que vemos sentido na obra como um todo. Syro nunca é comum, Aphex sai da zona de conforto da EDM como sempre fez para criar uma obra rítmica e matématica em sua composição, mas estatítisca em sua execução – os resultados são inesperados com uma probabilidade de erro e aleatoriedade que não vemos em nenhum lugar na música atual. É como se fugíssemos do esperado a todo momento, sem nunca nos perdemos na confusão e no excesso de informação.

Se Kraftwerk ficou conhecido como “música de robô”, nomenclatura muito bem aceita pelos pais da EDM, podemos ver uma diferença muito básica entre os alemães e Richard, um artista que tenta reproduzir circuitos e mecanismos da mesma forma. Se enquanto o primeiro ainda tinha o lado romântico de uma máquina que era objetiva e fixa ao seus códigos – o robô comum visto de forma opressora em Metropolis de Fritz Lang – , Aphex Twin é digital, quase orgânico e simbiótico, exemplo maior de uma conclusão de nosso tempo: a da dependência tecnológica. No entanto, aqui as composições são naturais e ao mesmo tempo sintéticas, como se estivéssemos diante do funcionamento da natureza e chegando à conclusão que o que muita vezes parece ser destino é na verdade simplesmente o acaso. Longe do hype, o produtor constrói a sua melhor obra até então, pela variabilidade e acessibilidade explícita em um produto de um homem sempre à frente de seu tempo, mas que sempre soube se comunicar com seus contemporâneos.

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BOM PARA QUEM OUVE: Boards of Canada, Flying Lotus, Four Tet
ARTISTA: Aphex Twin
MARCADORES: EDM, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.