Resenhas

Aretha Franklin – Amazing Grace

Gravado ao vivo em uma igreja batista de Los Angeles, este é o mais famoso, intenso e celebrado disco Gospel da Rainha do Soul

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Ano: 1972
Selo: Atlantic Records
# Faixas: 14
Estilos: Soul, Gospel
Duração: 85'
Produção: Jerry Wexler, Arif Mardin, Aretha Franklin

Após levar um Grammy por Young, Gifted And Black (1972), Aretha Franklin retornou às prateleiras menos de seis meses depois com o disco duplo Amazing Grace, gravado em uma igreja batista em Los Angeles, em parceria com o Southern California Community Choir e orquestrado por James Cleveland. Como é sabido – e como as informações credenciam –, essa é a mais famosa, intensa e celebrada incursão Gospel feita pela Rainha do Soul. As influências do Gospel tradicional fazem parte das raízes familiares de Aretha, cujo pai, reverendo C.L. Franklin, gravou mais de 70 sermões entre 1948 e 1979, ano em que foi assassinado durante um assalto em Detroit.

Mas, além de Aretha se sentir em casa navegando pelos corais em louvor – e pelo piano de Cleveland – e de sua voz nos brindar com algumas das performances mais impressionantes de sua carreira, o que torna Amazing Grace tão especial são seus flertes com o universo Pop. Ou melhor: com o que há de Pop no Soul e no R&B defendido com maestria pela diva até aquele período. Se na abertura “Mary Don’t You Weep” – cantiga lendária entoada pelos escravos na época da Guerra Civil Norte-Americana – ela dá tons eclesiásticos em uma duradoura acapella, na seguinte ela mostra as cartas de quem sabe muito transitar pela música secular. No medley “Precious Lord, Take My Hand”/ “You’ve Got A Friend”, Aretha transforma a composição da sempre presente Carole King em um hino de louvor à amizade com Deus. O que torna a inclusão da canção mais ousada – e o resultado comovente ainda mais admirável – é o fato de que, no ano anterior, James Taylor havia a lançado como single e a colocado no topo do Hot 100. Portanto, era um hit estrondoso das paradas Pop utilizado em uma canção totalmente afundada no Gospel. E funciona demais, como todas as aproximações e misturas do disco.

Aretha acelera o andamento e dá toques harmônicos de Blues em “Old Landmark”, canção tradicional Gospel gravada pelo grupo The Brewsters Singer no fim da década de 1940 – e resgatada por James Brown em parceria com o próprio James Cleveland, como parte da trilha sonora do filme Os Irmãos Cara de Pau, clássica comédia dos anos 1980. A euforia de palmas agitadas se alterna à serenidade, em especial nas belíssimas “Give Yourself To Jesus” e “Precious Moments”, e reaparece em “How I Got Over”, chamada pela Rolling Stone na época de “a primeira canção a entrar no Top 10 Gospel desde ‘Oh, Happy Day’”. 

As experimentações arrojadas que transcendem o Gospel surgem também na versão repaginada de “You’ll Never Walk Alone”. Originalmente lançada como parte do musical Carousel, em 1949, a canção – que hoje serve até como grito da torcida do Liverpool – ganha ares divinos sob a voz de Aretha, o piano econômico e maravilhoso de Cleveland e um coral catártico no final, como um clímax construído com precisão. Mas as reutilizações da música secular não deixam que o Gospel perca seu protagonismo e uma prova incontestável é a faixa-título, com 10 minutos de Aretha reproduzindo a magia costumeira o célebre hino cristão composto no século 16 e espalhado por todos os cantos dos Estados Unidos. 

Amazing Grace provou o que já era possível prever: a partir daquele momento, Aretha poderia fazer o que quisesse, porque tudo traria sua marca milagrosa. No Gospel, ela já se sentia mais do que à vontade, mas, àquela altura, já eram mais de 15 anos de uma carreira de sucesso e a coroação assegurada de Rainha do Soul. Como resultado, a naturalidade ao mesclar influências do Pop e do R&B sem perder jamais o peso espiritual é arrebatadora para fiéis a Aretha, a Deus e aos dois. O disco foi sucesso de público e crítica e, além de vender mais de duas milhões de cópias apenas nos Estados Unidos, conquistou o gramofone de Melhor Performance de Soul Gospel, no Grammy de 1973. No fim de 2018, chegou aos cinemas o registro das gravações ao vivo do álbum.

(Amazing Grace em uma música: “How I Got Over”)

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MARCADORES: Gospel, R&B, Soul