Resenhas

Aretha Franklin – Young, Gifted and Black

LP representa um dos pontos mais altos da carreira da cantora ao reverberar paixão e orgulho sob uma cama musical ao mesmo tempo eclética e bem acabada

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Ano: 1972
Selo: Atlantic Records
# Faixas: 12
Estilos: Soul, Blues, R&B, Jazz, Funk, Gospel
Duração: 44'
Produção: Tom Dowd, Arif Mardin, Jerry Wexler

Há quem argumente que Young, Gifted and Black é o melhor disco de Aretha Franklin. Evidentemente, eu não estou aqui para cravar essa afirmação, mas, sem dúvida, posso garantir que está entre os momentos mais iluminados de uma carreira já brilhante. O álbum de 1972, lançado também pela Atlantic Records, vem na sequência do lendário Amazing Grace, gravado ao vivo em uma igreja (e que acabou de ganhar uma versão em longa-metragem para o cinema). A relação da cantora com o Gospel estava mais alinhada (e explosiva) que nunca. É nesse contexto em que YG&B se insere. Não à toa, a faixa que dá nome ao disco – uma releitura da canção assinada por Nina Simone – chega com todos os elementos eclesiásticos no lugar: um piano que guia a melodia, um coral que intensifica os refrãos e uma solista que dirige esse louvor que, neste caso, não tem como seu homenageado Jesus Cristo, mas sim a história estruturalmente reprimida do povo negro. É uma declaração linda de amor e uma validação do trabalho, das experiências e dos sentimentos de muitas pessoas.

Assim, o LP transcende seu status de “boa música” para, com coragem, se firmar como um símbolo da luta antirracista. Mas, não se engane, há sim muita boa música aqui. Algumas das melhores de Franklin que, neste registro, é a autora de muitas das faixas. É o caso da delicadamente psicodélica “Day Dreaming” que, segundo a Rainha do Soul, foi feita com o seu namorado na época – Dennis Edwards, de The Temptations – em mente. O mesmo vale para a surpreendente “Rock Steady”. Igualmente escrita pela cantora, a canção (que, diga-se de passagem fala sobre “transar a noite inteira”) tem uma levada Funk que funciona de prenúncio para o que será a energia de uma Betty Davis.

Em YG&B, acontece algo curioso para a época: em uma só música, Franklin navega por diferentes ritmos costurando-os com sua potente voz. Na bela “All the King’s Horses”, por exemplo, tudo começa com um Blues que depois cresce para um R&B. Em outras oportunidades durante a audição, misturam-se no mesmo caldeirão Jazz, Soul, Funk, Gospel e são essas complexificações melódicas que tornam o LP tão interessante e o destaca da discografia cheia de hits da cantora. Vale lembrar que os covers deste álbum são memoráveis. “The Long and Winding Road” vem do Let It Be (1970) dos Beatles, “Border Song” – a música que fecha o disco – é de Elton John. O parceiro de longa data Burt Bacharach aparece na fantástica “April Fools” que conta com uma orquestra a sua disposição (flauta, violino, violoncelos e outros instrumentos clássicos contornam a voz de Franklin nesta faixa).

De modo geral, Young Gifted and Black é um álbum apaixonado. Dá para sentir no decorrer das faixas o cuidado com que cada uma das faixas foram adaptadas para estar naquele lugar, naquele momento. Há uma organização inteligente das músicas que, em sua maioria, falam de amor em letras que ganham muito mais impacto com a musicalidade que o registro proporciona. A verdade das palavras cantadas aqui se revela na naturalidade da voz de Franklin, no estilo improvisado de seus arranjos, na sua quebra com a estrutura “verso-refrão-verso”… YG&B é a prova de que Aretha Franklin não é só uma cantora com uma voz inigualável. Ela é uma mulher apaixonada por música, pela sua história e por estar apaixonada. E não tem nada mais fácil (e delicioso) do que se apaixonar pelo apaixonante. Um presente dela para a história da música Pop.

(Young, Gifted and Black em uma música: “Day Dreaming”)

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MARCADORES: Blues, Funk, Gospel, Jazz, R&B, Soul

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