Resenhas

Death Grips – Government Plates

Violento e agressivo, disco impressiona pela sua complexidade e acaba proporcionando diversos retornos a obra de um grupo de Hip Hop mas com os pés no Punk

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Ano: 2013
Selo: Third Worlds
# Faixas: 11
Estilos: Hip Hop, Punk, Noise
Duração: 35:40
Nota: 4.0
Produção: Zach Hill, Flatlander

A confusão, paranóia são as constantes por trás do polemico grupo de Hip Hop, Death Grips. Na verdade resumi-los ao gênero é um desperdício e diminui muito a atitude de uma banda que tange muito bem o Punk e o Noise. Talvez por esta efervescente combinação, seus shows sejam tão intensos, suas músicas tão pesadas e sua abrangência muito restrita a determinados nichos, não pela falta de qualidade e sim pela complexidade de um som quase atemporal.

A combinação resultante, no entanto, foi muito aclamada pela crítica com o debut do grupo, The Money Stores que mostrou sua cara no ano de 2012. Chocante por suas letras confusas e violentas, todas expressas em arranjos ainda mais brutais os aproximavam cada vez da distorção roqueira ao invés dos bumbos pulsantes do Hip Hop. No entanto, versos em Rap, e uma pegada experimental não nos deixam esquecer o ritmo que estamos lidando, e o Death Grips acaba destoando de tudo que escutamos nos dias atuais.

O quarto disco, Government Plates é um turbilhão de agressividade, asfixia e que encontra pela primeira vez, arranjos eletrônicos, pesados como os vistos nos trabalhos do Crystal Castles, por exemplo. Como um soco na nuca, a extensa You Might Think He Loves You for Your Money But I Know What He Really Loves You for It’s Your Brand New Leopard Skin Pillbox Hat, surge com gritos e ruidos que são jogados na cara do ouvinte e o deixa quase nocauteado. A pegada se torna ainda mais intensa nas faixas subsequentes. Anne Bonny é densa e quase incompreensível. As quebras de ritmo em sua metade, jogando os mesmos versos em um tempo menor e em uma pseudo inception musical – pequenas inserções no meio da faixa, que te mudam completamente a atmosfera da música – são um exercício vanguardista que pega o público de surpresa.

A aproximação com o Punk surge nos versos diretos, gritados em que se sente os respingos da agressão sonora que MC Ride conduz no grupo. “Fuck your idols, suck my dick”diz em alto e bom o músico no protesto que ocorre na excelente Two Heavens com um sample que poderia muito bem ter sido tirado do Asian Dub Foundation. Muita confusão e cacofonia sequenciada parecem adjetivos que diminuiram a qualidade sonora do disco, no entanto são os elementos que te fazem retornar a musica do Death Grips.

Eu volto a escutar Feels Like a Wheel, por exemplo, porque logo de cara as referencias à música paquistanesa da M.I.A. parecem ser muito intensas para serem misturados ao eletrônico pesado do Crystal Castle. A faixa te deixa tão agitado, hipnotizado que nos vemos presos a agonia agressiva que o grupo proporciona. I`m Overflow é brilhante, letárgica e surge no meio da obra calmamente, de forma tranquila. É o sopro de melodia necessário no disco, no entanto, tudo é quebrado para novamente MC Ride declamar suas linhas violentas enquanto o baterista Zach Hill flui tudo sem perder a mão.

O brilhantismo pode ser resumido em uma palavra: Birds. A faixa com samples de Gil Scott Heron – será?- destoa aqui pela inventividade notada ao longo de Government Plates mas aplicada de outra forma. Efeitos de voz que causam um delay com reverb acompanham perfeitamente uma guitarra extremamente simples mas efetiva. Relaxante até certo ponto, novamente o grupo nos tira da zona de conforto, jogando diversas ideias no meio da música para depois retornar ao tema central.

A produção vista aqui é diferenciada com as diversas inserções aleatórias, sintetizadores incomuns e o cuidado para não se perder no meio de tanta cacofonia. Ou seja, mesmo violento e direto, a melodia é sentida em todas as faixas. Ao final de Government Plates eu me sinto agitado, irritado por faixas como Bootleg ou a ˜frita˜ Big House. No bom sentido, é claro, mas a violência verbalizada e instrumentalizada só me fazem retornar com ainda mais curiosidade a um disco que não é nada compreensível em sua primeira audição. Um desafio para poucos desbravadores mas que não inibe um som vanguardista, distinto e preocupado em quebrar paradigmas. Nos quase sete minutos da faixa final, Whatever I Want (Fuck Who’s Watching) a banda destrói qualquer relação com ouvinte em uma faixa psicodélica, tensa e quase venenosa. É basicamente o que a obra tenta provocar: agressões sonoras para ver se quem está com os fones de ouvido consegue aguentar e entender um som extremamente complexo.

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BOM PARA QUEM OUVE: Cities Aviv, Jeremiah Jae, Kanye West
ARTISTA: Death Grips
MARCADORES: Hip Hop, Noise, Punk

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.