Resenhas

Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo

Impressionante primeiro álbum de inéditas da cantora carioca revela o hoje na nossa música

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Ano: 2015
Selo: Circus
# Faixas: 11
Estilos: Pós-MPB, MPB, Indie
Duração: 39'
Nota: 5.0
Produção: Guilherme Kastrup, Celso Sim e Rômulo Fróes

O mundo acaba diariamente para milhões de pessoas, que precisam encarar o pós-Armagedom de conviver com a perda de um filho, a falência, um diagnóstico que vem como uma sentença de morte, uma tragédia ambiental, algum tipo de abuso sexual ou violência doméstica, o vício (seja seu próprio ou de alguém próximo) ou um atentado terrorista, por exemplo. Da mesma maneira que o único movimento que alguém está no fundo do poço pode fazer é voltar à superfície, estar aberto ao novo é a única possibilidade de reconstrução, já que há sempre uma grande clareza que o passado, para o bem ou para o mal, já teve sua vez.

Elza Soares é A Mulher do Fim do Mundo por já ter passado por uma impressionante lista de tragédias pessoais e, ainda mais, por manter-se não apenas sobrevivente, porém verdadeiramente viva e aberta não só ao futuro, mas ao lado bom do presente. Pois ouvir seu disco é justamente isso: Um profundo mergulho em parte do que a música brasileira destes dias tem de melhor e que, muito provavelmente, marcará época.

Acompanhada de uma ficha técnica que só alguém de seu calibre poderia reunir (Guilherme Kastrup na produção, Celso Sim e Rômulo Fróes na direção artística, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e José Miguel Wisnik entre alguns dos colaboradores – seja em instrumental, vocal ou composições), a cantora chega na ousadia da vitalidade reunida em quase oito décadas e soa áspera, mas melancólica; Sensível, mas forte; Resultado de uma herança musical muito definida, mas encravada na imprevisibilidade do futuro.

É difícil conter os calafrios ao ouvir a faixa-título, não ter vontades de aplaudir a reação à violência doméstica em Maria da Vila Matilde (com o ótimo subtítulo (Porque se a da Penha é brava, Imagine a da Vila Matilde)), ou não perceber as lágrimas vindo na emenda da última faixa com a primeira no repeat, mesmo que seja já a oitava audição. Seja na energia de Luz Vermelha ou na balada Solto, não há dúvidas de que você está ouvindo algo muito superior a praticamente tudo o que está por aí.

Quando lembramos da informação de que A Mulher do Fim do Mundo é o primeiro álbum de inéditas de Elza Soares, a história gera um novo sorriso. Impressiona a maneira com que a artista consegue manter-se ativa em sua carreira, sempre disposta ao novo – algo que só quem entende que a única direção a seguir é a do futuro consegue fazer. Aplauda este presente de pé.

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BOM PARA QUEM OUVE: Duda Brack, Ian Ramil, Letuce
ARTISTA: Elza Soares
MARCADORES: Indie, MPB, Ouça, Pós-MPB

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.