Resenhas

Jamila Woods – LEGACY! LEGACY!

Novo disco da cantora nascida em Chicago traz uma célebre homenagem a figuras fundamentais da história da cultura negra

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Ano: 2019
Selo: Jagjaguwar
# Faixas: 13
Estilos: R&B, Jazz, Trip-hop, Neo Soul
Duração: 49'
Nota: 4.5
Produção: Peter Cottontale, Slot-A e Oddcouple

LEGACY! LEGACY! é o segundo disco de Jamila Woods, uma artista que coleciona vivências para transformá-las por meio das diversas vertentes criativas em que atua. Para ter clareza a respeito do álbum que estamos prestes a ouvir, é preciso recapitular a sua história. Primeiramente, vale lembrar do seu livro de poesias, The Truth About Dolls (2012), que ganhou notoriedade rapidamente e já faz parte de importantes compilações de poesia negra contemporânea. Como se não bastasse, seu lado ativista também é efervescente: ela atua em diferentes frentes de projetos sociais de sua cidade natal. Exemplo disso é o Young Chicago Authors (YCA) que se propõe a ajudar jovens talentosos a desenvolverem seus potenciais nas artes.

Na música, é possível reconhecê-la na potente “Blessings”, faixa do celebrado The Coloring Book (2016), de seu conterrâneo Chance The Rapper. No entanto, é em seu Heavn – do mesmo ano – que ela mostra a que veio. Dedicado à cidade de Chicago, o disco se esmera em enaltecer a riqueza da negritude. Mas, se em seu LP de estreia é uma observação minuciosa da metrópole que a permite alcançar esse objetivo, em LEGACY! LEGACY! Jamila dedica cada uma das músicas do álbum a uma personalidade fundamental para a sua formação histórico-cultural.

Assim, o disco se torna um museu. Confere status a estas pessoas, coloca-as em posições de magnitude e as agradece, evidentemente, pelo seu legado. Entretanto, não pense que a artista se contenta apenas em colocá-los em pedestais intangíveis. Pelo contrário: seu intuito é, justamente, o de se envolver com a contribuição deixada por eles. Nesses conteúdos, a cantora se pinta, remixa, distorce, brinca… A homenagem, então, funciona como uma maneira de admitir que essas referências já são partes integrantes de quem ela é.

Sem apelar para estereótipos, cada track é intitulada pelo primeiro nome desses personagens. Por isso, as canções têm vida própria: em “BETTY”, uma sonoridade suave contrasta com as explosões vocais pelas quais ficou conhecida a cantora Betty Davis que inspira a música. Sua letra, contudo, não dá margem para a ideia de uma mulher frágil em sofrimento: “Eu não sou a sua garota típica / Tire essa imagem da sua cabeça”. A composição que homenageia Frida Kahlo, por sua vez, alia o mistério de seu olhar à complexidade de seus retratos surrealistas (“Multiplique meus lados / Eu preciso de muito espaço”).

Na suingada “EARTHA”, palavras de não conformidade se revelam: “Eu estou cansada de você”, declara. Já em “MILES”, essa atitude transparece nas distorções de Rhodes auxiliadas por um baixo intenso e repetitivo e por uma letra sem rodeios (“Cale a boca, filho da puta / Eu não aceito pedidos / Abençoada por meus amantes / Eu não sou como o resto”). No mesmo espírito do dinamismo dos quadros e painéis de Jean-Michel Basquiat, “BASQUIAT” se apresenta como um protesto refinado.

Nos primeiros segundos do disco, os ritmos de Jamila já se apoderam do corpo de quem se aventura em ouvi-la. Mas, ao final do LP, esse controle transcende a corporalidade ao nos expor ao poder do discurso da artista. Escutar LEGACY! LEGACY! é uma experiência que demanda certo abandono de si para que, então, possa entrar a expressão da cantora que, tão potente, é capaz de transformar quem se abre a ela. Fica aqui o convite.

(LEGACY! LEGACY! em uma faixa: BASQUIAT)

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ARTISTA: Jamila Woods
MARCADORES: Neo Soul, R&B, Trip-Hop

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.