Resenhas

Jessie Ware – What’s Your Pleasure?

Muito além de “nostalgia Disco”, novo disco celebra contradições de forma classuda, puxa os fantasmas para dançar com glamour, melancolia, musicalidade rica – e pede uma boa taça de gin

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Ano: 2020
Selo: Interscope/PMR/Friends Keep Secrets
# Faixas: 12
Estilos: Italo Disco, Electro Pop, House
Duração: 53'
Produção: Benji B, James Ford, Joseph Mount, Kindness, Matthew Tavares, Midland

Quem acompanha a carreira da cantora e compositora inglesa Jessie Ware sabe que há muito tempo ela caminha pelas sombras. Não no sentido de uma fama obscura (vide as inúmeras indicações a prêmios da indústria da música), mas nos caminhos de sua sonoridade. Desde seu primeiro disco Devotion (2012), Jessie Ware tece nuances que, apesar de conservarem o Pop como norte, são atravessadas por uma estética melancólica e intimista.

O grande diferencial da cantora é que, longe de se limitar ao estereótipo da “garota tristinha”, ela usa a angústia a favor de uma personalidade extremamente dançante. Algo como o sentimento da já clássica “Dancing On My Own”, de Robyn, mas com toques soturnos de um Soul aos moldes de Nina Simone, de quem a britânica é grande fã. Agora, em seu novo disco, Jessie eleva esta relação sombrio-chic a um novo patamar.

Lançado três anos após seu último disco, What’s Your Pleasure? evidencia um novo objeto de prazer para Jessie: a música Disco. Timbres, arranjos, melodias e harmonias são todos minuciosamente escolhidos para que possam comportar e integrar a personalidade sonora marcante da cantora. Não temos aqui os moldes do Disco dos anos 70/80, aquele bate estaca incessante ou a mistura com o Funk (que Dua Lipa abordou em seu Future Nostalgia). Jessie Ware optou por um apego ao Disco mais intimista. O intuito aqui é dançar, com classe e elegância e uma cara de que “nada me atinge”. Um carão que, com toda justiça, ganha destaque na capa do disco (com referência visual de uma fotografia da modelo Bianca Jagger, feita por Andy Warhol).

Jessie vive aqui um híbrido de décadas diferentes. Os anos 1970 contribuem com arranjos de cordas acolhedores e clássicos, mas ao mesmo tempo fantasmagóricos (elemento que certamente tem uma influência espiritual do local no qual foram gravadas, o estúdio Abbey Road). Já da década seguinte, Jessie pega emprestado as sonoridades do início do movimento House, mais especificamente do Italo Disco, com o minimalismo típico de sequenciadores e sintetizadores. Dos anos 1990, há um flerte com o House mais elaborado, caprichado no glamour brega no melhor estilo Antena 1, porém, ironicamente, sem perder a classe em nenhum momento. A partir dessa reunião, Jessie constrói uma coleção de elementos a seu dispor, os quais sustentam sua aura glamour-melancólico, que ganha nesse disco uma nova roupagem.

Aos primeiros segundos do disco, “Spotlight” nos inunda com o lamento da voz frágil de Jessie e, logo depois, imprime um sintetizador pulsante para dar o início oficial do disco. “Soul Control” entrega o que o título promete: uma sensação Soul intensa expressa nos acordes quentes de sintetizadores. Já “Adore You” promove um sentimento mais Lounge, diminuindo o andamento, mas trazendo um suingue igualmente contagiante. O lamento do disco ganha um ar épico com a crescente construção de “Step Into My Life”, o momento ideal para pegar uma taça de gin. Em “Mirage (Don’t Stop)”, o destaque fica por conta da sedutora linha de baixo, impregnada de groove e poder. “Remember Where You Are” é o hino final, encerrando o disco em seu auge em uma mistura precisa entre melodias do Carpenters e a exuberância de Air.

What’s Your Pleasure? não é um simples exercício de nostalgia Disco/House. É uma celebração (das mais classudas) das contradições. Dessas linhas tênues que separam o chique e o brega, os arranjos complexos de cordas e o minimalismo eletrônico, o êxtase e a sofrência, a felicidade e as sombras. São essas contradições que tornam o disco tão irresistível e sedutor. É como se soubéssemos da aparente incompatibilidade entre esses elementos, mas, mesmo assim, pagássemos para ouvir essas doces antíteses. Jessie traz em um tom brando aquilo que é mais doloroso e, inevitavelmente, humano: nossas sombras.

(What’s Your Pleasure? em uma faixa: “Remember Where You Are)

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ARTISTA: Jessie Ware

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.