Resenhas

Wado – Vazio Tropical

Leve e rico ao mesmo tempo, disco produzido por Marcelo Camelo sabe emocionar com sua beleza

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Ano: 2013
Selo: Oi Música
# Faixas: 11
Estilos: MPB, Samba
Duração: 28:23
Nota: 5.0
Produção: Marcelo Camelo

Grandes obras causam admiração, mas as excelentes propõem envolvimento. São aquelas que te causam uma reação imediata e uma relação crescente a cada novo contato. Dentre essas excelências, há quem consiga surpreender por algum fator literalmente “espetacular”, aquela qualidade de entreter o espectador a qualquer custo. Enquanto isso, outros preferem se envolver com o receptor naquele plano alheio à nossa realidade física onde reside a boa arte, aquela agitação interna percebida além do corpo. E a nota máxima que Vazio Tropical recebe aqui vem principalmente disso.

O apanhado de canções que Wado escolheu para nos “presentear” desta vez (termo que ele usava para descrever seu trabalho anterior, Samba 808) não está aqui para ser meramente ouvido. É um daqueles casos que aparecem de tempos em tempos de disco feito para se carregar ao longo dos dias, servindo de companhia, ombro amigo ou amante por não só trazer as palavras que queremos ouvir, mas por fazer isso calorosamente. Pode ser com paixão ou carinho, isso vai de ouvinte para ouvinte, mas o abraço vem.

É interessante como Cidade Grande, a música que inaugura o álbum, ilustra a dinâmica de conhecê-lo. O quanto sua melodia é agradável pode ser percebido imediatamente, mas sua progressão revela mais timbres e mais alma, assim como nos envolvemos com cada vez mais intimidade com o Vazio. Sempre que o ouvimos, um novo verso salta à atenção com mais significado e mais beleza. E esse é o termo chave para entender a obra. Em toda sua complexidade e mesmo com tanto desgaste, o adjetivo “bonito” nunca pareceu tão adequado.

Isso porque aquela singeleza MPBística é muito bem trabalhada por Wado, aquele jeitinho de mesclar palavras cotidianas que ficam naturalmente bonitas juntas, seja pela sonoridade batucante de nosso idioma, ou pela identificação com os termos usados para descrever ações tão nossas, tão comuns, como em “Vai doer, mas depois vai passar” (Rosa), ou “Eu me sinto tão feliz a ponto de explodir” (Tão Feliz). Lidos ou ditos, os versos podem ter menos valor, mas soam esplêndidos nas músicas para as quais foram pensados.

A produção de Marcelo Camelo pode ser sentida principalmente ao trazer à tona a sensibilidade do músico no sussurro da voz e de alguns instrumentos. É aí que o título da obra faz mais sentido. Para o lugar comum dos gringos (ou da mente colonizada por eles), a música dita tropical é aquela com os metais estridentes e a carnavalesca percussão ao fundo, induzindo qualquer um à festa. Na quarta-feira de cinzas, lá onde jaz a folia, fervem verdadeiramente os corações. No espaço em branco entre os sons, onde já não há confetes, quem fala é o que se sente quietinho.

A música instrumental que dá nome ao álbum, com menos de um minuto de duração, aparece para concluir a obra. Poslúdica, funciona como uma vinheta entre o que acabou de se viver e o que vem em seguida, seja outro disco ou o replay. Os 28 minutos que compõem Vazio Tropical são densos em emoções e leves aos ouvidos, com Quarto Sem Porta fazendo Mallu Magalhães rir ao final e Zelo, dueto com Cícero, nos ajudando a matar as saudades de seu Canções de Apartamento, enquanto o momento à la Chico em Flores do Bem e a inquietude do vocal em Canto dos Insetos acompanhado de um calmo violão nos garantem que estamos diante de uma obra completa.

A longevidade que essas músicas terão, juntas ou não, na lembrança e nas audições é a garantia de que o envolvimento emocional com Vazio poderia por si só conferir sua menção entre “os grandes” por esta e pelas próximas gerações, porém, além de tudo, sua qualidade não permite que este álbum passe desapercebido por qualquer um que esteja aberto à boa música, dentro e fora dos trópicos.

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BOM PARA QUEM OUVE: Los Hermanos, Mallu Magalhães, Cícero
ARTISTA: Wado
MARCADORES: MPB, Ouça, Samba

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.