Resenhas

Björk – Homogenic

A obra-prima da islandesa mudou a história da música Pop ao mesmo tempo em que é uma carta de amor à sua terra natal e uma ode à possibilidade de viver uma vida em sua máxima potência

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Ano: 1997
Selo: One Little Indian Records, Elektra Entertainment
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Alternative Pop, Eletrônico, Avant-garde, Trip-hop, Art Pop
Duração: 43’
Nota: 5

Se você ainda não teve essa oportunidade, antes de ler essa resenha, pare o que você está fazendo, vá até o Google Maps, digite “Islândia” na pesquisa e perca-se pelas paisagens do minúsculo país com a ferramenta “Street View”. Em qualquer ponto que você deixar o cursor, as imagens reveladas vão te surpreender. A Islândia parece convergir as versões mais radicais de todos os elementos da natureza: tempestades de neve, gêisers, vulcões em erupção, terremotos –, mas, ao mesmo tempo: a aurora boreal, as montanhas, as praias, os rios, as planícies e florestas… É extraordinário pensar que nesse lugar tão peculiar tenha nascido Björk no dia 21 de novembro de 1965 com um mapa astral tão intenso quanto as paisagens de seu país natal: Lua, sol e ascendente em escorpião.

Escorpião é o signo fixo de água, ou seja, é ele que, mais intensamente, manifesta as características do elemento. É o signo das profundidades, do mistério da vida, da intensidade emocional, da vida vivida com sangue borbulhando nas veias. Apesar de não falar nada sobre astrologia, são os temas que circundam o universo escorpiano que aparecem em Homogenic (1997) – um disco em que está em pauta a possibilidade de sentir os sabores mais extremos da nossa existência.

Em “Jóga”, isso claramente se manifesta na letra: “E você me empurra para esse / Estado de emergência / Tão lindo estar aqui”. Esta, que é a segunda faixa do disco, dedica-se, na verdade, a uma amiga de Björk. Uma celebração de uma amizade cujo desdobramento é a revelação das camadas internas da mente e do coração de cada uma das envolvidas. No entanto, em entrevista à Record Collector, em 2002, a islandesa revelou que a poesia composta para essa canção também serve, curiosamente, como um hino para o seu país. “Paisagens emocionais / Elas me confundem / O enigma se resolve”: Björk compreende, aqui, que a complexidade de suas emoções é tão expansiva quanto a geografia do lugar onde nasceu.

Homogenic é um disco repleto de contradições bem-vindas: não daquelas que resultam de uma confusão mental ou da falta de reflexão, mas sim daquelas que provém do exercício do aprofundamento da alma, do esforço em tocar o essencial. Por isso, em “Hunter”, ela avisa: tudo está mudando, “eu estou saindo para caçar”. A imagem violenta da caçadora abre o disco para deixar dois pontos claros:

1) O que se viu em Debut (1993) e Post (1995) ficou para trás: “Se a viagem é a procura / E o que se encontra torna-se o nosso lar / Eu não estou parando”. O mergulho na música eletrônica toma proporções inéditas em sua carreira até então. Sai de cena o Eletro-Pop dos primeiros álbuns e, em seu lugar, chegam os experimentalismos que vieram a tornar-se parte do seu DNA artístico. O interessante é que, para se aproximar da natureza, a cantora atravessa o seu oposto: o universo robótico, tecnológico, futurista.

2) Björk está brava e fala com seus ouvintes de uma posição de poder. Em nenhum momento, ela abaixa a cabeça para quem se torna objeto de seu desejo. Está em controle. Na poderosa “5 Years”, por exemplo, a cantora revela aos berros “Eu estou tão cansada de covardes / Eles falam que eles querem / E depois não conseguem lidar”.

Falando em gritos, a sua voz também atinge novo patamar neste LP. Desde o primeiro verso da primeira música já dá para sentir que a intensidade, a raiva, com a qual ela trabalha está presente em cada nota proferida pela islandesa. Essa veemência, inclusive, se manifesta de maneiras muito diferentes conforme o disco vai avançando. Homogenic representa um ponto crucial para Björk enquanto cantora e é uma de suas explorações vocálicas mais ricas. “Na Islândia, você não vai à igreja ou à terapia. Você vai andar no meio da floresta, nas montanhas, e vai cantar. Eu já fiz muito isso. Acho que essa é uma das maneiras pelas quais o país mais me influenciou”, disse.

Para além de tudo o que já foi dito, a ordem das músicas também faz todo o sentido, traça uma narrativa. Não à toa, a explosiva “Pluto” é a penúltima. Com a voz totalmente alterada eletronicamente, Björk passa quase toda a canção em vocalizes intensos sobrepostos a, provavelmente, os beats mais agressivos de todo o álbum. Plutão é o último planeta do sistema do solar e, na mitologia grega/romana, representa também Hades, o deus do inferno, do submundo. É o planeta do escondido, do não-visto, do subconsciente. É também o planeta da morte. Eis que em “Pluto”, Björk anuncia “vou explodir” e, depois dessa autodestruição, desembarcamos em “All Is Full of Love” – talvez, uma de suas faixas mais iluminadas.

Ali, ela disserta – depois de atravessar o disco inteiro e uma recente experiência catártica – sobre os caminhos que o amor faz pela nossa existência. A grande subversão que Björk propõe aqui é a de que não importa se jogamos nosso amor sobre algo ou alguém e este algo ou alguém não retribui. O que importa é que nós fomos capazes de fazer isso, fomos capazes de dividir com o mundo o sentimento mais abissal, único e poderoso da humanidade. No fim das contas, estamos todos nos beneficiando dessa entrega: em última instância, sejamos literais: há, sim, amor por todo lado. Mas, só é capaz de enxergá-lo quem já teve a audácia de se colocar no mundo como uma guerreira para enfrentar o desafio de entender a complexidade de nosso mundo interior, o nosso espaço enquanto sujeito e a nossa possibilidade de transformação.

(Homogenic em uma música: Jóga)

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