Resenhas

LCD Soundsystem – Sound of Silver

Passando com sobras pelo “teste do segundo disco”, banda trabalha som dançante, catártico e caótico, enquanto celebra as particularidades e os detalhes do cotidiano

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Ano: 2007
Selo: DFA
# Faixas: 9
Estilos: Dance Punk, Eletrônica, Indie Pop
Duração: 55'
Produção: The DFA

Quem nunca ouviu falar do famoso “teste do segundo disco”? Quando um grande álbum de estreia é lançado, cria-se uma expectativa – exigência, ansiedade – descomunal com relação ao seu sucessor. É um momento em que são colocadas muitas cobranças, e os fãs anseiam por saber se aquele primeiro momento foi algo fugaz ou o início de uma tradição prolífica. Pode até ser que atualmente esse mito tenha perdido força por conta de cultura de singles que, muitas vezes, deixa discos em segundo plano. Mas, na metade dos anos 2000, ainda era algo bastante relevante e comentado – quanto maior fosse o sucesso da estreia, maior seria a antecipação do que viria adiante. Agora, como antecipar o segundo passo de algo tão vivo, caótico e singular como a estreia de LCD Soundsystem? Como criar expectativa para algo que, em essência, foi construído a partir de despretensão e repúdio às expectativas Pop? Essa é a história do segundo capítulo da banda.

Sound Of Silver sucede uma explosão intensa. A indicação do disco de estreia ao Grammy colocou o LCD Soundsystem em um lugar para além do título genérico de “banda revelação”. O grupo (já) estava longe de ser considerado amador ou novato, demonstrando uma habilidade ímpar na criação de uma identidade sólida. Por isso, realizar uma previsão acerca de um segundo disco seria uma previsão fútil, pois a ambição do grupo mostrou que eles poderiam alcançar voos inimagináveis. Mas o movimento de Sound Of Silver parece ser justamente o contrário e, mais uma vez, o grupo revela a ironia de seus processos criativos. Este é um disco bastante pessoal, sobre a experiência cotidiana e a magnitude dos eventos mundanos. A escolha – se é que podemos chamar assim – vem de um discurso anti-Rock por parte de James Murphy. Ele coloca que os temas “menores” sempre chamaram mais sua atenção, ao contrário da magnitude em que o Rock procura se aprofundar em suas letras. Assim, ao reduzir, localizar e especificar o universo que os instiga a criar música, o grupo cria uma expressão ampla e diversa. Isto não é necessariamente raro na discografia do grupo, mas em Sound Of Silver as coisas tomam um rumo dos mais grandiosos e emocionantes.

Os grandes temas dão espaço a situações do cotidiano. Um DJ mais velho com saudades de seus amigos e sofrendo por estar entre adolescentes, um homem tomando café, a tristeza de se viver em Nova York e até mesmo o tempo meteorológico, o assunto mais trivial de todos, tem um espaço precioso no disco. O aspecto pessoal tão grande que Sound Of Silver foi dedicado a Dr. George Kamen, psiquiatra búlgaro e terapeuta do frontman da banda – a relação entre eles está expressa em “Someone Great”. Por serem plenamente identificáveis por qualquer pessoa no mundo, estes assuntos tornam o disco extremamente popular e, qualquer um que tenha achado a sonoridade do disco anterior estranha, agora se encontra no meio dessa estranheza.

O âmbito mais pessoal e cotidiano faz com que o disco ganhe um tom de diário – ou para respeitar o tempo em que foi lançado, de um blog. Há um tom sincero, mas também uma necessidade de colocar para fora o acumulo e as arestas destas experiências consideradas tão triviais. A escolha destes temas se encaixa perfeitamente na sonoridade do grupo, que neste disco se encontra em um momento polido e cada vez mais certo de sua proposta. Não à toa, o single “All My Friends”, talvez o maior hit do grupo, se encontra aqui – uma canção sobre saudades e amizade de letra quase chorosa, mas entoada em uma epifânica faixa dançante. Até mesmo baladas mais lentas ganham espaço, como a destruidora “New York, I Love You but You’re Bringing Me Down”, porém são construídas de forma explosiva e catastrófica. O LCD Soundsystem pode parecer uma banda Pop de hits supérfluos, mas a maneira como suas canções são repletas de temas ricos é certamente um dos charmes de Sound Of Silver

O título revela ainda mais particularidades sobre este profundo, dançante e tocante álbum. A prata mencionada tem vários sentidos. Um deles diz respeito ao processo de criação do disco, em que James Murphy, descontente com os rumos que o projeto estava tomando, forrou as paredes da fazenda que servia de estúdio com papel alumínio bem brilhante. Sua ideia era que isso impactasse positivamente na captação dos instrumentos, trazendo mais brilho e estridência para o registro. O nome também se refere a um aspecto brilhoso, em referência aos anos 1970/1980 (T. Rex, Human League e Hawkwind).

Além dessas inspirações, o título vem de um ditado, comumente proferido pelo pai de James Murphy, sobre como ter um filho é sempre uma sensação de estar em segundo lugar, com uma medalha de prata. Para o músico, isso ganha um sentido especial quando comparado ao primeiro disco – como se sempre houvesse aquele disco fantástico para se lembrar. Embora ele considere Sound Of Silver melhor que LCD Soundsystem.

Sound of Silver é uma prova da constante reinvenção do grupo. Não no sentido de mudar completamente sonoridades e timbres, mas de colocar suas músicas a serviços de outros propósitos. Neste caso, o disco serve à ideia de nos sentirmos estranhos e de como é fantástico perceber que não estamos sozinhos com este sentimento. É quase como uma celebração ao deslocamento e a estar fora da norma. Ninguém melhor do que LCD Soundsystem, que ironiza e rechaça o Pop, para nos fazer sentir assim: orgulhosos das próprias esquisitices – que, no fundo, não são tão esquisitas assim.

(Sound of Silver em uma faixa: “All My Friends”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.