Resenhas

Neil Young + Promise Of The Real – The Monsanto Years

Novo álbum do cantor consegue unir causa nobre e boas canções

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Ano: 2015
Selo: Warner/Reprise
# Faixas: 9
Estilos: Rock, Folk, Hard Rock
Duração: 50:58
Nota: 3.5
Produção: Neil Young

Pois bem, vamos destrinchar The Monsanto Years. Antes, porém, convém uma contextualização no espaço/tempo: Neil Young, o cara, the man, o “véio”, é um remanescente dos tempos em que o Rock era um eficaz meio de expressão de ideias no âmbito coletivo. Era assim: o sujeito subia no palco ou gravava um disco e, através disso, transmitia para seu público alguma informação que funcionava mais ou menos como uma notícia. A partir disso, os admiradores daquele artista colocavam em prática o que ele dizia, seja no terreno da ação ou carregando as ideias para propagá-las mais adiante, num movimento bem semelhante a um discurso político proferido para uma audiência de correligionários. Este tempo passou, o mundo mudou, mas podemos dizer que esse mecanismo ainda funciona se o artista souber como fazer, principalmente no que diz respeito a chamar a atenção para si. Portanto, música Pop como veículo de protesto, ainda pode, sim, amiguinhos.

O problema é que tal prática ficou datada em face do pragmatismo neoliberal de hoje, ou seja, para quê vamos protestar se colocamos em risco nossos contatos, nossos conchavos e, acima de tudo, colocamos em risco o nosso lucro? Pois bem, Neil Young não dá a mínima pra isso. Como é um ícone, não constitui aposta arriscada para sua gravadora multinacional, que já se acostumou a ter o bardo canadense na lista dos mais engajados artistas em atividade e sabe que ele pode, a qualquer momento, retomar sua melhor forma como compositor e cantor. Desta vez, Young voltou seu arsenal para as megacorporações multinacionais, que, em comparação com suas antepassadas do início ou de meados do século 20, são verdadeiros monstros sem face, responsáveis pela massificação/precarização da própria sobrevivência da parcela mais pobre da Humanidade, colocando em risco sua saúde, seu emprego e seu futuro. Não é um álbum contra a Monsanto, é um álbum contra o avanço corporativo como agente do, digamos, fim de tudo.

Neil associou-se à banda Promise Of The Real, liderada por Lukas e Micah Nelson, filhos do veterano cowboy musical Willie Nelson, visando, talvez, uma sonoridade mais próxima do Country/Blues/Folk contemporâneo, um movimento sem sentido, uma vez que ele, Young, é influência decisiva para essas novas formações. As canções oscilam entre os modelos lentos e rápidos que Neil desenvolveu para suas criações mais próximas da encruzilhada Folk/Rock. A faixa de abertura, A New Day For Love tem a característica pegada guitarrística do velho, levada adiante por um competente invólucro instrumental. A voz estridente soa como um pregador no meio das pradarias, como se fosse um Antônio Conselheiro contemporâneo, cujo discurso sai por uma conexão de internet pirateada de algum lugar. O clima muda para Wolf Moon, a canção seguinte, lenta, sob a luz da lua, com gaita e andamento singelo, como tantas outras que Neil compôs. Funciona medianamente.

Guitarras voltam em People Want To Hear About Love, talvez a melhor do álbum, rascante, apocalíptica, mas com vocais de apoio mal colocados, disparando contra a Chevron, corporação americana de exploração petrolífera, talvez avalista de várias campanhas militares dos Estados Unidos contra países produtores de óleo. É canção inequivocamente youngiana. Big Box também segue pelo mesmo caminho, com acordes poderosos de guitarra e a voz do velho surgindo em meio a um tornado instrumental. Dessa vez os vocais de apoio surgem bem colocados, como fantasmas em meio ao vento. A canção seguinte, A Rock Star Bucks A Coffee, com versos contra a rede de cafeterias Starbucks, é um Rock mais tradicional, comprometida seriamente por assobios meio constrangedores em alguns momentos, mas tem boa harmonia vocal e trabalho instrumental competente. Workin’ Man é mais Country e surge com a voz de Neil Young no limite entre o anasalado e a raiva totais, tudo bem feito e autêntico, enquanto Rules Of Change traz a característica alternância entre a fragilidade vocal do bardo e suas intenções raivosas, numa bem amarrada moldura Rock.

A faixa título tem levada dolente e DNA Country sem abrir mão do compromisso com a modernidade, soando atual e opondo a pindaíba enfrentada por fazendeiros americanos em contraste com a prosperidade transgênica da companhia de grãos. O fecho com If I Don’t Know traz uma boa balada youngiana, com guitarra apitando e vocais psicodélicos em algum lugar da maçaroca sônica e melodia linda.

Ao contrário dos álbuns recentes que Young lançou, tanto conceituais, quanto de protesto, The Monsanto Years tem consistência e boas canções, envoltas em bons arranjos e consegue passar sua mensagem de forma satisfatória. Em termos artísticos, talvez seja capaz de tirar a má impressão dos trabalhos recentes do homem, mas não se sabe se terá reverberação entre novos e velhos fãs. De qualquer forma, é bom ver que Young pode estar inaugurando uma nova e mais criativa fase em sua complexa carreira. Em termos de boa audição de um disco de Rock, The Monsanto Years oferece baixíssimos riscos para você.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.