Resenhas

Drake – Nothing Was The Same

Melhor momento da carreira do rapper é repleto de ótimas batidas, belas baladas e consegue pela primeira vez, criar um disco de verdade

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Ano: 2013
Selo: Young Money, Cash Money, Republic
# Faixas: 13
Estilos: Hip Hop
Duração: 59:26
Nota: 4.5
Produção: Noah "40" Shebib

Drake surgiu como um dos nomes mais quentes do Hip Hop no final da década passada. Dono de uma capacidade impar de criar hits através de versos rápidos mas extremamente melódicos, o rapper alcançou sucesso rapidamente ao começar a tanger uma parte do gênero que aparece facilmente nas rádios e cativa o público. Seus discos, no entanto, nunca chegaram a impressionar do começo ao fim, a não ser pelos singles lançados ou uma ou outra música. Faixas como Best I Ever Had e Sucessfull presentes no seu debut, Thank Me Later eram destaques esparsos, como estrelas solitárias.

Nada disso diminuia a vendagem de suas obras, e o sucessor, Take Care, produzido em conjunto com The Weeknd foi um trememendo fenônemo mas mais uma vez patinava em sua consistência e mostrava um rapper mais chapado que rápido. Mesmo assim trouxe músicas as paradas como Healines e The Motto. Sinceramente, o destaque ao redor do músico mostrava-se correto pelo seu notório talento, mas algo faltava em seu trabalho para finalmente chamar a minha atenção – e de outras pessoas que muitas vezes nem gostam de Hip Hop- , e a parte perdida neste quebra-cabeça é encontrada em Nothing Was The Same.

Drake mudou e nada é o que parece no melhor momento de sua discografia. Se antes suas obras eram arrastadas, longas e enjoativas, aqui vemos um trabalho no sentido totalmente oposto. Conciso com as melhores batidas que podemos escutar em 2013, melódico e quebrado é uma demonstração de criatividade que faltava em sua carreira. Tuscan Leather abre de forma compreensível e se o músico afirma “this is nothing for the radio”, só podemos perceber uma leve ironia pois mais uma vez nos deparamos com hits atrás de hits mas que pela primeira vez tem uma sequência lógica. A quebra de ritmo na música abre um mundo de possibilidades distinto aqui.

Como a ótima Furthest Thing, leve balada crescente que aborda a dualidade que o rapper vive. Dificilmente você irá se deparar com um momento ruim aqui, e o refrão da música é simplesmente viajante e pegajoso, um paradoxo interessante. A progessão do disco não decepciona, Wu-Tang Forever é feita para os momentos de escapismo induzido, etéreo e longe da sobriedade. Até que em algum ponto, as coisas mudam de lugar. As melodias são mais pesadas e o músico demonstra o seu pior comportamento.

Worst Behavior é nervosa como Drake jamais foi. “Motherfucker never loved us” ele diz, no meio de batidas tribais, rápidas e versos que parecem mais socos na cara que simplesmente palavras. Enérgica, temos aqui uma das faixas mais criativas de 2013. O baixo vibrante, o sintetizador que tira o ouvinte da zona de conforto e o transporta para longe, são algumas das referências que temos no meio de tanta originalidade e densidão.

Se antes os versos do músico eram acompanhados por outros rappers famosos – uma forma de demonstrar respeito e ao mesmo tempo insegurança em relação ao seu trabalho- agora, demoramos para perceber que eventualmente alguém também contribui em voz. E tal realização é simplesmente sublime na dobradinha propícia para o sexo: From Time com a maravilhosa voz de Jhene Aiko e, a, ouso dizer, melhor balada de Hip Hop do ano, Hold On, We’re Going Home com Majid Jordan. Dançante, sexy, se tocada em algum clube provavelmente levará as pessoas a soltarem o seu libido. Too Much com uma das vozes por trás do SBTRKT, Sampha, é triste, bonita e emocionante.

Curiosamente, quando parece que obra está chegando ao fim de forma espetacular com a épica Pound CakeParis Morton Music 2 que abre com Jimmy Smith falando :”So we hope you enjoy listening to this album half as much as we enjoyed playing it for you. Because we had a ball.”, frase que expressa a satisfação de ter feito o disco mais orgânico do artista, uma pessoa surge. Nada menos do que Jay-Z realiza uma participação especial aqui, surpreendendo todos com a sua costumeira habilidade de criar versos conectados e ritmados. Drake é coroado na canção mas antes de termina-la entre tantos minutos – sete, no total- diz: “Like I should be on my best behavior and not talk my shit And do it major like the niggas who paved the way for usLike I didn’t study the game to the letter And understand that I’m not doing it the same, man, I’m doing it betterLike I didn’t make that clearer this year”.

Vemos aqui um músico desempenhando o seu potencial, mostrando o melhor do seu jogo e finalmente se consolidando no alto escalão do Hip Hop. Não bastam hits, sucesso entre as mulheres ou vendas escaladas, mas sim um trabalho que seja coerente, consistente e que consiga transpor todas as qualidades através de versos e batidas inteligentes. Drake faz isso aqui ao fugir de seu melhor comportamento, ao demonstrar que as coisas não são mais o que parecem e que agora, pode ser respeitado. Nothing was the Same surge como sua obra prima, e o aproxima ainda mais do grande público pois cria-se aqui um disco acessível, viciante, orgânico, autoral e excelente.

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BOM PARA QUEM OUVE: Kendrick Lamar, Jay-Z, Kanye West
ARTISTA: Drake
MARCADORES: Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.