Resenhas

Erykah Badu – Baduizm

Mais do que um dos discos definitivos do Neo Soul, trabalho de estreia é um cativante manifesto pessoal e a primeira amostra de uma emoção criadora singular

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Ano: 1997
Selo: Kedar (Universal)
# Faixas: 14
Estilos: Neo Soul, R&B, Rap
Duração: 58'
Produção: Erykah Badu, The Roots, Madukwu Chinwah, Bob Power, JaBorn Jamal, Ike Lee III, Richard Nichols, James Poyser, Tone the Backbone, Jaífar Barron e Robert Bradford.

Erykah Badu chegou aos estúdios pronta. Um álbum de estreia, às vezes, pode ser palco de experimentações e tentativas, mas para Badu foi um manifesto determinado de seu universo: Baduizm (1997) é disco de mulher preta. Ainda que debates sobre pioneirismos e marcos temporais possam ser inconclusivos, Baduizm é, sem dúvidas, um dos discos que definiram o Neo Soul, surgido nos anos 1990, ao lado de contemporâneos como Maxwell e seu Maxwell’s Urban Hang Suite (1996) e, após a estreia em Brown Sugar (1995), D’Angelo e o clássico Voodoo (2000). O trabalho que apresentou Badu, talvez mais do que em seus pares, coloca o domínio da métrica do Rap em conexão a uma voz que ecoa Jazz, enquanto a banda viaja por linguagens de Soul de todas as épocas.

Vencedor do Grammy de Melhor Álbum de R&B, o disco passa pelas mãos de Questlove, do The Roots, e Bob Power, produtores que também colaborariam recorrentemente com D’Angelo. E também pela visão de William “Kedar” Massenburg, responsável por lançar Badu pelo selo Kedar, braço da Universal, após a gravação de “Your Precious Love”, dueto entre ela e o próprio D’Angelo. Produtores experientes e antenados, prumo mercadológico e o talento de Badu. Emplacou – artística e comercialmente. Além do disco ter conquistado a medalha de prata no Billboard 200, “On & On” — faixa que rendeu um segundo Grammy, de Melhor Cantora de R&B — chegou ao topo do ranking de R&B (e ao 12º no Hot 100), enquanto “Next Lifetime” atingiu o terceiro lugar.

Tematicamente, Badu traz um olhar intimista e se debruça em afetos e dolorosas rejeições. Sua voz política aparece mais timidamente em “Drama” e, com uma faceta mais pessoal, em “Otherside of The Game”. É curioso como Badu escolhe criar narrativas para suas canções, o que pode ser uma das respostas de por que suas composições continuam tão relevantes e vivas 23 anos depois — seja no interlúdio que abre espaço para que ela discorra sobre o fim de um relacionamento (“Afro Freestyle Skit”); na descrição das questões cotidianas e familiares envolvendo atividades ilegais (“Otherside of The Game”); ou ainda no diálogo que situa o ouvinte a respeito de um triângulo amoroso e  decisões que precisam ser tomadas (“Next Lifetime”).

Badu posiciona suas referências de diversas formas, como citações a Stevie Wonder — a lista de questões e problemas mundiais de “Pastime Paradise” em “Drama” — ou, em “Afro Freestyle Skit”, em que a história narrada por Erykah conta que seu amado promete levá-la para ver o Wu-Tang Clan. O baixo muito presente e a cativante maleabilidade da cantora, que mistura mumbles à espontaneidade para atingir notas que exigem verdadeira maestria vocal (como acontece em “Appletree”), dão o tom para adentrarmos nas emoções e no espírito de Badu. É interessante sublinhar que o disco de estreia da artista foi muito homenageado dentro do Hip Hop: somente “On & On” foi sampleada por Mos Def, Lil Kim, Mac Miller, Froid e a lista continua por mais 70 pessoas. A também popular “Otherside of The Game” é base para Kendrick Lamar desferir suas rimas em “Compton State Of Mind”, faixa-título de uma mixtape lançada pelo rapper em 2011.

Erica Abi Wright mudou o primeiro nome para Erykah para se livrar da carga escravocrata dos nomes em países colonizados, e “Badu” apareceu como uma homenagem ao seu mumble favorito do Jazz. Arrisco que seu disco de estreia consegue ser tão sólido porque é um tratado sobre ela mesma e resultado de uma investigação contínua e persistente –muito maior do que a construção de uma persona para o público de uma década específica. Ao ser fiel a ela mesma, Badu entrega sua voz do Jazz, sua narrativa e seu flow do Rap, sua vulnerabilidade do R&B, e plana nesse groove divertido e sensível que é ser.

(Baduizm em uma faixa “Appletree”)

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ARTISTA: Erykah Badu