Resenhas

Kate Bush – Hounds Of Love

Considerado o pico criativo da discografia de Kate Bush, quinto disco une, com brilhantismo, novas possibilidades de estúdio e narrativas densas

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Ano: 1985
Selo: EMI
# Faixas: 12
Estilos: Art Rock, Baroque Pop, Art Pop
Duração: 47'
Produção: Kate Bush

Desde seu segundo disco, Lionheart (1978), Kate Bush começou a colocar-se como principal nome da produção de seus discos. Assim, ao entrar na década de 1980, ela já havia consolidado um ritmo criativo fervoroso, que a levou a produzir não só dois discos em cinco anos, mas uma série de clipes e turnês incrivelmente ambiciosas. Kate Bush estava em um pico criativo, muito estimulado pelo relativo sucesso comercial que tinha consolidado desde o começo de sua carreira. Contudo, em 1982, o lançamento de seu quarto disco, The Dreaming, quebrou um pouco esse ritmo: foi seu primeiro disco com um sucesso comercial, digamos, abaixo do esperado. Isto pode não ter atingido Kate Bush em um nível tão profundo assim, mas certamente mudou algumas questões relativas a seu processo de composição.

Anos mais tarde, a artista construiu, no antigo celeiro de sua família, um estúdio com 24 canais, grande o suficiente para que toda sua parafernália instrumental– e, em plena década de 1980, isso significava vários sintetizadores, como um de seus fiéis companheiros, o sampler Fairlight CMI. Kate mudara um pouco a dinâmica de seu processo de composição, mas isso pareceu ser o suficiente para provocar uma mudança gigantesca em seus discos. A simples mudança de ambiente foi o necessário para que Hounds Of Love pudesse emergir.

Quinto disco de Kate Bush, ele é o maior sucesso de vendas entre todos os seus discos. Para se ter uma noção, o registro é responsável por tirar do topo das paradas inglesas Like A Virgin, de Madonna – uma façanha. Falando nisso, Hounds Of Love marca a conquista de um novo território para Kate: a América. Era a primeira vez que um de seus discos entrava nas paradas americanas – ainda que o disco tenha recebido uma mistura de críticas positivas e negativas explicada em parte pela ascensão do Hip Hop e da música eletrônica. Mesmo assim, é eleito por boa parte do público como o melhor disco de sua carreira. Como a mudança de seu setting criativo e a conquista de novos territórios resultaram em sua obra mais ambiciosa?

As explicações partem de diversos cantos. Primeiramente, este é um momento crucial de Kate Bush enquanto experimentadora sonora. Sua incessante curiosidade por novas linguagens a levou a produzir (e experimentar) com tecnologias top de linha para a época. O já citado sampler Fairlight CMI exemplifica bem esse salto, por conta das possibilidades inovadoras que permitiam aos compositores da época. Hoje em dia, samplear discos é algo relativamente batido, mas Kate Bush utilizou essa possibilidade como forma de criar novas texturas, que instrumentos acústicos não atingiam.

Não estamos falando apenas de utilizar sons de instrumentos convencionais, como trompetes, cordas e órgãos de igreja. A mente de Kate ia muito além disso. Alguns exemplos mais marcantes incluem o coro de vozes do Richard Hickox Singers apresentando a canção folclórica “Tsintskaro”, e também um trecho de diálogo do filme Night Of The Demon. A manipulação desses timbres, aliada ao instinto pesquisador de Kate Bush, é um dos elementos que construíram em Hounds Of Love um espírito altamente experimental, mas que ainda sim priorizao universo de referências de Kate Bush.

Outro aspecto que torna este disco bastante ambicioso é a formação de um conceito ao longo do repertório. Os lados A e B do formam uma divisão intencional que revela com categoria suas duas partes. Há duas histórias em Hounds Of Love. A primeira, referente às primeiras cinco faixas, ganha o nome do próprio disco e reflete um aspecto mais Pop do estilo de Kate. Destas cinco, quatro se tornaram hits. É nessa metade que temos “Running Up That Hill” abrindo o registro em uma construção narrativa e sonora referência até hoje quando se deseja estudar Art Pop/Rock. É um momento mais acessível ao público, mas que mesmo assim conserva a característica experimental de Kate – imprimindo arranjos de cordas, cantos mirabolantes e timbres únicos de sintetizador. Como era ela que ocupava o papel de produtora principal, não havia limites para o que Hounds Of Love pudesse se tornar.

Se a primeira metade é de mais “fácil” assimilação, a segunda é um mergulho profundo no universo em que Kate Bush recebeu carta branca. É como se o disco fosse construído de uma maneira a nos seduzir pela aparentemente normalidade, apenas para nos arrebatar nas nove faixas seguintes. Esta parte ganha o nome de “The Ninth Wave” e funciona como uma peça de música clássica, com diversos movimentos. É aqui que Kate brilha (ainda mais), com todos os seus recursos narrativos, expressivos e musicalmente livres. Encarnando diferentes personas, ela vai nos contando uma história sobre nascimento e renascimento de uma forma menos dramatúrgica e mais poética – críticos chegaram a comparar o seu estilo de verso com o poeta britânico Lord Tennyson. Assim, a tecnologia da época somada a esta linguagem lírica (mas também narrativa) tornam esta segunda metade um núcleo essencial de Kate Bush. Todas as características de discos anteriores estão aqui, mas amplificadas por um momento extremamente prolífico da artista.

Hounds Of Love é um momento de ouro para Kate Bush. O disco por si só é completo, mas a produção audiovisual que i sucedeu certamente expande este universo, revelando cantos obscuros e significados ocultos. É o tipo do disco que foi precipitadamente rechaçado por uma parcela da crítica por parecer “confuso”, ou ainda o genérico termo “pouco coeso”. Uma mulher muito à frente de seu tempo e que recebeu passe livre para produzir aquilo que bem entendesse. Não porque ela podia, mas porque ela precisava. É fantástico perceber o quanto cabe dentro de Kate Bush e, por mais que ousemos achar que as análises sobre este disco estão completas, sempre é possível se surpreender com a quantidade de significados possíveis para Hounds Of Love.

(Hounds Of Love em uma faixa: “Waking The Witch”)

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ARTISTA: Kate Bush

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.