Resenhas

Pavement – Brighten The Corners

Maior êxito comercial da banda nas paradas, quarto disco apresenta um Malkmus simples e cativante

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Ano: 1997
Selo: Matador
# Faixas: 12
Estilos: Indie, Rock Alternativo
Duração: 46’
Produção: Bryce Goggin, Mitch Easter, Pavement

Pode haver muita gente que discorde, mas: Brighten The Corners, lançado em fevereiro de 1997, é o disco ideal para você apresentar Pavement a aquele amigo que não conhece Stephen Malkmus e sua trupe – ou que até torce o nariz para a ideia de Rock Alternativo dos anos 1990. Ideia que Pavement e Malkmus encarnaram como ninguém e cuja influência, desde o primeiro disco, atingiu uma infinidade de bandas seguintes. Não estamos dizendo que o quarto álbum da banda chega a ser “Pop” ou então lançando mão do bom e velho (e meio vago) “acessível” – ainda que o trabalho tenha conquistado o 70º lugar da Billboard, melhor posição do Pavement na história da parada. O caso é que BTC apresenta as características musicais mais afáveis – entre tantas outras – da composição de Malkmus. E elas são exploradas com brilhantismo.

A faixa de abertura, “Stereo”, é um cartão de visita melódico, baseado em riffs simples de guitarra respondidos por linhas econômicas e envolventes de baixo. Descompromissado e adorável como sempre, os vocais de Malkmus podem até nos iludir, mas a melodia da ponte “But high-ho silver, ride / High-ho silver, ride” que emenda em um refrão contagiante logo descarta qualquer abordagem “blasé” ou excessivamente slacker. É uma abertura com cara de hit indie, para cantar a plenos pulmões e sorrir abraçado com amigos. (O que de maneira nenhuma exclui a galhofa e a ironia, tal qual fica comprovado em versos como “What about the voice of Geddy Lee / How did it get so high? / I wonder if he speaks like an ordinary guy? / I know him and he does”).

Falando em hit, Malkmus também explora a capacidade de compor um belo refrão chiclete em “Shady Lane”, canção seguinte (e maior êxito comercial do projeto), impulsionada por um clipe dos mais descolados, dirigido por Spike Jonze. Como de costume em discos do Pavement, BTC traz o resgate de sonoridades de outrora, mas também ilumina o que viria a seguir. “Date With IKEA”, composta pelo guitarrista Scott Kannberg, parece antecipar uma gama de sons que ecoaria pela primeira metade dos anos 2000, de Jimmy Eat World ao Emo mais Pop, e cairia bem na trilha de algum American Pie.

Mas Brighten The Corners também tem muito espaço para a ternura, como na dobradinha de moer o coração formada por “Old To Begin” e “Type Slowly”. São duas baladas downtempo que evidenciam ainda mais a habilidade de Malkmus em aliar graciosidade a uma espécie de fúria adolescente – tudo isso traduzido em riffs, harmonias e maneirismo vocais que desmontam qualquer ideia de persona inatingível e o apresentam vulnerável, angustiado, pé no chão.

Uma das grandes canções do disco, aliás, tem ares confessionais como não costumamos ouvir tanto em Malkmus: “A welcome to my friends/ This house is a home and a home’s where I belong / Where the feelings are warm and the foundations are strong / If my soul has a shape, well, then it is an elipse” (“Boas-vindas aos meus amigos/ Esta casa é um lar e um lar onde eu pertenço/ Onde os sentimentos são quentes e as bases são fortes/ Se a minha alma tem uma forma, bem, é uma elipse”), ele canta em “Blue Hawaiian”. Guiada por uma bateria uniforme e mais acelerada, além de uma linha de baixo que resguarda certo groove em meio às marteladas da guitarra, a faixa parece composta depois de uma sessão de muito Rap e muito Beck (o cantor). O resultado é melancólico e simplesmente bonito.

E esse é o grande trunfo de Brighten The Corners: sua beleza – às vezes escondida, às vezes nem tanto. Seja no “ah uuuuh”, de “Starlings Of The Slipstream”, ou no riff que abre “Passat Dream” permeando falsetes. É um disco que deixa um pouco de lado as pirações e os flertes com o Noise de Wowee Zowee (1995) e do clássico Crooked Rain, Crooked Rain (1994). Mas que, de maneira coesa e criativa, nos mostra um compositor maduro e, mais do que nunca, com consciência de seu tamanho e influência. Talvez por isso, ainda mais sedutor e cativante.

(Brighten The Corners em uma faixa: “Stereo”)

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ARTISTA: Pavement