Resenhas

Elliott Smith – Either/Or

O anti-herói e seu violão saem de Portland e se aventuram pelo mundo

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Ano: 1997
Selo: Kill Rock Stars
# Faixas: 12
Estilos: Folk, Alternativo
Duração: 37'
Produção: Elliott Smith, Tom Rothrock, Rob Schnapf

No documentário Heaven Adores You (2014), um amigo próximo a Elliott Smith contou que o finado músico costumava dizer que gostava apenas de compor e gravar e que turnês e entrevistas serviam fundamentalmente para poder viver de compor e gravar. Em Either/Or, lançado em fevereiro de 1997 e considerado por muitos o grande disco da carreira de Smith, temos, até aquele momento, a amostra mais compenetrada dessa urgência em desaguar canções. Roman Candle (1994) e Elliott Smith (1995), claro, já haviam pavimentado com segurança o caminho para o início de uma jornada brilhante, mas Either/Or foi a camada final e necessária. Lá pelos idos de 1996, Smith já não se sentia confortável com a banda Heatmiser sendo a emissora de suas composições e o terceiro disco solo se tornou o primeiro efetivamente livre de qualquer distração – ainda que ele o tenha gravado enquanto, em teoria, fazia parte da banda, o foco já era completamente outro. Com sua saída, o grupo acabou em 1996 e, a partir dali, era Elliott Smith contra o mundo. Either/Or foi o marco inicial dessa nova fase.

Àquela altura, o músico era figura bastante conhecida pela efervescente cena underground de Portland, cidade onde viveu a adolescência e formou o Heatmiser. Não é como se houvesse grande expectativa ou qualquer tipo de pressão rondando o lançamento do terceiro disco, mas Smith já era um músico consolidado e maduro o suficiente para fazer seu talento encontrar – soa estranho dizer isso ao falarmos de Elliott Smith – a ambição. E ambição, aqui, nada tem a ver com extravagância, mas significa deixar mais de lado o aspecto caseiro/Lo-Fi dos primeiros trabalhos e encorpar suas canções – sem, obviamente, abandonar a entrega intimista (e sussurrada) inigualável de um compositor prendado, mas que não desejava ser um entertainer. E funciona, funciona demais.

“Speed Trials” abre com um riff que até remete ao grunge ou ao rock alternativo mais enérgico, mas logo, sob uma caixa sem esteira, encontra doçura, como normalmente se espera de Elliott Smith: há uma revolta contida, quase inerte, mas nunca impassível e, menos ainda, áspera. Sempre há espaço para ternura. Mas o doce normalmente vem acompanhado de verdades amargas, como em “Alameda”, que remete a John Lennon em gravações demo do Anthology. “Nobody broke your heart / You broke your own because you can’t finish what you start”. Frase doídas e sinceras são entoadas com um mel Pop sempre pontual, que, repentinamente, é interrompido por uma nota torta inesperada.

Ele abraça um Power Pop com violões nas felizes & melancólicas “Ballad Of Big Nothing” e “Pictures Of Me” e deixa o tom mais aéreo em “No Name Nº 5”, comandada por um violão afinado inteiramente um tom abaixo. Ela é imaginável em uma voz na linha de Eddie Vedder, mas Elliott a canta na típica singeleza, sem espaço para melismas. Um dos principais êxitos do disco, “Between The Bars” é sombria, linda e fatalista e, até hoje, rende debates entre os fãs, que questionam se a canção fala sobre a prisão do alcoolismo ou do amor – discussão que parte da polissemia de “bars” (literalmente bares ou barras/grades). Por que não as duas coisas de uma só vez?

“Angeles” é sublime, um Folk dedilhado que mostra sua habilidade no fingerstyle. À época, Smith havia rejeitado convites para se mudar para Los Angeles e, em poesia irônica e com toques de storytelling, parece abdicar das tentações e satisfações das quais, supostamente, desfrutaria na vida hollywoodiana. E o que dizer de “Say Yes”? Bela e triste, pessimista e esperançosa, uma composição-súplica sobre amor e não-amor dedicada a Joanna Bolme, sua namorada da época. A melodia simples e irresistível fez com que a faixa se tornasse algo como o grande hit do catálogo de Elliott Smith.

Either/Or representou o momento em que o mundo teve contato com o lirismo soturno e terno de Elliott Smith: letras capazes de aliar caráter altamente confessional a uso de arquétipos – como um estudo de personagem – e que, justamente por isso, são tão poderosas e identificáveis. Como um rockstar relutante, Smith, com seu terceiro disco, expandiu sua legião de fãs para muito além da amada Portland e virou figura comentada no mundo da música. A inclusão de faixas do disco na trilha de Gênio Indomável (1997), de Gus Van Sant, e a apresentação de “Miss Misery” (canção desgarrada do repertório do disco e indicada na categoria de Melhor Canção Original) na cerimônia do Oscar colocaram os holofotes quentes do show biz e as câmeras-microscópios sobre o músico. Inclusive, após a repercussão do álbum, ele se mudou para Nova York. Foi o boom decisivo para tudo – tudo – o que veio depois, e certamente ninguém no planeta imaginaria coisas como Madonna cantando “Between The Bars” em shows ou sendo usada na hypada série Rick & Morty ou ainda “Say Yes” como parte da trilha sonora de um filme da franquia American Pie. Aconteceu e Either/Or foi o primeiro passo para isso e todo o resto.

Nosso anti-herói era alguém no meio do caminho. Um caminho muito particular. Era intimista demais para ter qualquer coisa a ver com um resquício do Grunge; era discreto e nada dramático para dialogar com o Post Hardcore ou Emo; era citadino o bastante para não ser estritamente categorizado como um trovador do Folk tradicional e, ao mesmo tempo, desplugado demais para se inserir no Noise e ou pisar em pedais de fuzz do Rock Alternativo. Elliott Smith era um pouco de cada coisa, mas definitivamente não era nada disso ou aquilo. Como o título do disco, uma homenagem a um tratado do filósofo Kïerkgaard, o rapaz era, para ele próprio, “um qualquer”, “um tanto faz”. Especialmente a partir de Either/Or, essa habilidade de ser apenas um qualquer se pareceu mais com ser todo mundo. E uma multidão passou a querer ouvir o que a voz e a alma de Elliott Smith tinham a dizer.

(Either/Or em uma faixa: “Angeles”)

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ARTISTA: Elliott Smith